Encaminhei-me
para a aula de Inglês num estado de estupefacção. Nem tinha reparado que a aula
ja tinha começado.
-Obrigado por
se juntar a nós menina Martins - disse o professor Miguel
Eu fui logo de
imediato para o meu lugar, corada.
O resto da
manha passou sem que nada ficasse memorizado na minha memória. Eu nao conseguia
acreditar naquilo que o Rafael tinha-me dito nesta manha e o seu olhar. Pensei
que tivesse sido um sonho extremamente convincente que eu confundi com a
realidade.
Dessa forma,
estava completamente impaciente e assustada quando eu e a Jessica entramos na
cantina. Eu desejava ver a sua cara para me certificar se tinha voltado a ser a
mesma pessoa fria e indiferente que eu tinha conhecido nas semanas anteriores.
Fui invadida
pela desilusão quando os meus olhos focaram a mesa dele e so viram os seus 4
irmãos. Será que teria ido para casa? Foi a única coisa em que pensei, enquanto
me encaminhava para a mesa.
-O Rafael
Fernandes está a olhar-te de novo - afirmou a Jéssica, afastando-me da minha
abstracção ao ter pronunciado o nome dele - Porquê que será que ele hoje está
sentado numa mesa sozinho.
Levantei de
imediato a cabeça. Assim que os nossos olhares se cruzaram, ele levantou uma
mão e fez um gesto com o seu dedo indicador para que fosse fazer-lhe companhia.
-Está a
dirigir-se a 'ti'? - perguntou-me - Jéssica
-Hm, talvez
preciso de ajuda nos trabalhos de casa de Biologia. É melhor ir ver o que é que
ele quer.
Quando cheguei
à sua mesa, mantive-me de pé.
-Porque nao te
sentas hoje à minha mesa? - perguntou-me, sorrindo
Eu sentei-me
logo de imediato.
Parecia
impossível alguém tão perfeito existir.
-Esta situação
é fora do vulgar - consegui afirmar finalmente
-Decidi que,
ja que vou para o inferno, mais vale fazê-lo de uma forma consumada.
Esperei que
ele dissesse algo que tivesse sentido.
Ele voltou a
sorrir passados uns momentos.
-Parece que os
teus amigos estão zangados comigo por te ter roubado.
-Hão-de
sobreviver.
-Mas eu posso
nao te devolver - disse ele com um sorriso perverso nos lábios
Eu acabei por
me engasgar e ele riu-se.
-Pareces
preocupada
-Apenas estou
surpreendida... A que se deve isto tudo?
-Ja te tinha
dito antes, estou farto de continuar a manter-me afastado de ti. Por isso,
desisto
Ele ainda
sorria, mas os seus olhos ocres estavam sérios.
-Desistes? -
repeti, estando bastante confusa
-Sim, desisto.
A partir de agora faço apenas o que me apetecer.
-Baralhaste-me
de novo.
O seu
espantoso sorriso constrangido ressurgiu.
-Falo sempre
de mais quando falo contigo. É um dos problemas.
-Nao te
preocupes, eu nao compreendo nada do que dizes - disse-lhe ironicamente
-Estou a
contar com isso
-Entao, somos
amigos?
-Amigos... -
disse ele, indeciso
-Ou nao?
Ele mostrou um
sorriso rasgado
-Bem, podemos
tentar, mas digo-te de que nao sou um bom amigo para ti.
-Repetes isso
demasiadas vezes.
-Porque tu nao
me estas a dar ouvidos. Se fosses esperta, evitavas-me.
-Entao...
enquanto eu nao estiver a ser esperta, tentaremos ser amigos?
-Sim,
parece-me que é mais ou menos isso.
-Em que é que
estas a pensar? - perguntou-me com curiosidade
-Estou a
tentar compreender quem tu es.
O seu maxilar
contraiu-se quando fiz a ultima afirmação.
-Estar a fazer
alguns progressos nessa empreitada? - perguntou-me com um tom de voz
espontâneo.
-Nao muitos -
confessei
Soltou um riso
abafado
-Quais são as
tuas teorias?
Eu corei nesse
momento.
-Nao me dizes?
- perguntou ele
Abanei a
cabeça.
-É demasiado
embaraçoso.
Olhamo-nos
fixamente, sem nos rimos.
Passado uns
momentos, eu decidi cortar o silencio ao ver que ele estava um pouco tenso.
-O que se
passa?
-O teu
namorado parece que está a pensar que estou a ser desagradável contigo. Está a
deliberar-se se ha-de ou nao vir interromper a nossa discussão - esclareceu ele
-Nao sei a
quem te referes, mas provavelmente deves estar enganado
-Nao estou. Ja
te disse, maior parte das pessoas são transparentes.
-Excepto eu...
-Sim, excepto
tu.
-Nao tens
fome? - perguntou-me ele
-Nao. E tu? -
decidi perguntar-lhe
-Nao, também
nao tenho fome."
-Rafael, posso
pedir-te um favor? - perguntei após um instante de hesitação
Ele ficou um
pouco desconfiado.
-Depende
daquilo que pretendes.
-É so que...
pensei apenas... se poderias avisar-me antecipadamente da próxima vez em que
resolveres voltar a ignorar-me para o meu próprio bem pff? Apenas para que eu
própria me sinta preparada.
-Parece-me ser
justo.
-Obrigada.
-Podes, entao,
dar-me uma resposta em troca? - interrogou-me ele
-Okay, apenas
uma.
-Releva-me
'uma' teoria.
-Nao, isso
nao.
-Apenas uma,
eu prometo que nao me riu.
-Ris sim.
Eu estava
certa quanto a esse facto.
Ele baixou o
olhar e depois voltou a olhar na minha direcção.
-Por favor? -
disse ele, inclinando-se na minha direcção
-Hã, o quê? -
perguntei, um pouco confusa
-Por favor,
revela-me uma teoria.
-Hm, bem,
foste mordido por uma aranha radioactiva?
Fiquei
envergonhada quando comecei a falar.
-Essa teoria
nao é lá muito criativa - disse ele
-Lamento, mas
é a única que tenho.
-Nao estas nem
perto da verdade, o que na verdade me deixa satisfeito. - afirmou ele num tom
se provocação
-Nao ha
aranhas?
-Nao.
-Nao ha
radioactividade?
-Nenhuma.
-Raios! -
exclamei - Eu hei-de acabar por descobrir.
-Quem me dera
que nao o tentasses fazer.
-Porquê?
-E se eu nao
for o herói e sim o vilão?
-És perigoso?
- arrisquei-me a adivinhar, com a minha pulsação a acelerar quando reparei nas
minhas próprias palavras - mas nao es mau. Nao, nao acredito que sejas mau.
-Estas
enganada.
Quando reparei
que a cantina estava quase vazia, levantei-me de um salto.
-Vamos chegar
atrasados.
-Hoje nao irei
à aula.
-Porque nao
Rafael?
-Sabes, é
saudável faltar-mos às aulas de vez em quando.
-Bem, eu vou.
- informei-o
-Entao
vemo-nos logo.
Quando cheguei
à sala, o professor Jorge ainda nao estava lá.
Pelo material
que vi na sala de aula, a aula seria para tirar-mos sangue.
O professor
Jorge chegou à sala minutos depois de mim.
-A Cruz
Vermelha ira promover uma recolha de sangue em Lisboa no próximo fim de semana
e julguei que todos deveriam tomar conhecimento do seu respectivo sangue
sanguíneo.
Passado algum
tempo, os meus colegas começaram a retirar o seu proprio sangue. Eu comecei-me
a sentir mal, nao por me irem retirar o meu sangue (ainda nao tinha chegado a
minha vez) mas sim por ter cheirado o cheiro a sangue.
-Adriana,
estas bem? - perguntou-me o professor Jorge
-Stor, eu ja
sei qual é o meu grupo sanguíneo. - disse eu, sem energia
-Sentes-te
desfalecer?
-Sinto, stor.
– murmurei
-Alguém pode
levar a Adriana à enfermaria? - perguntou o professor à turma
Sabia que o
Mike estava desejoso de poder fazê-lo.
-Consegues
andar? - perguntou o professor
-Sim, consigo.
Fui entao, com
o Mike, ate à enfermeria. Mas antes de lá chegar pedi-lhe se nos poderíamos
sentar num banco.
-Deixas-me
sentar aqui so um bocadinho, por favor?
Ele ajudou-me.
-E mantém sem
a mão no bolso. - avisei-o
-Adriana? -
ouvi uma voz de longe. Eu tinha desmaiado
-O que se
passa? Ela magoou-se?
-Acho que ela
desmaiou. E nem sequer picou o dedo.
-Ei, consegues
ouvir-me Adriana?
-Nao, vai-te
embora.
O Rafael
soltou um sorriso abafado.
-Eu levo-a ate
à enfermaria - informou o Rafael ao Mike - Podes voltar para a aula.
-Nao, sou eu
quem deve fazê-lo - protestou o Mike
O Rafael
ignorou-o e continuou a andar comigo ao colo ate à enfermaria.
-Com que entao
desmaia ao ver sangue? - perguntou-me o Rafael
Eu nao
respondi.
-E nem era o
teu próprio sangue. - continuou
Quando
chegamos à enfermaria a menina Alves estava lá.
-Ela desmaiou
na aula de Biologia. - disse o Rafael - Ela está apenas um pouco fraca. Estão a
retirar sangue lá na aula.
A enfermaria
acenou com a cabeça.
-Deita-te aqui
um pouco amor; isto ja passa.
-Eu sei -
disse eu, suspirando
As náuseas
foram desaparecendo.
Graças à ajuda
do Rafael, consegui também escapar à aula de E.F.
Permitiram que
eu fosse para casa.
-Aonde é que
pensas que vais? - perguntou-me o Rafael
-Vou para
casa.
-Nao estas em
condições de conduzir sozinha. Eu levo-te.
Entrou no meu
carro no lugar de condutor. Eu entrei logo a seguir.
Quando
chegamos a minha casa, permanecemos os dois dentro do meu carro. Eu atrevi-me a
fazer-lhe a ansiosa pergunta que tinha por lhe fazer.
-Os Fernandes
adoptaram-te?
-Sim,
adoptaram.
Por momentos,
hesitei.
-O que
aconteceu com os teus pais?
-Morreram ha
alguns anos.
-Lamento. -
disse
-Mas, na
verdade, nao me recordo muito bem deles. O Bruno e a Catarina ja são os meus
pais ha muito tempo.
-E tu ama-los.
Nao era uma
pergunta, era, de facto, uma afirmação.
-E os teus
irmãos?
-Bem, os meus
irmãos, por exemplo, o Andre e a Rita vão ficar bastante chateados ao
constatarem que o meu carro está na escola e eu nao.
-Desculpa -
lamentei - é melhor ires.
-Sim, vemo-nos
2ª feira.
-Amanha nao
vais à escola?
-Nao, eu e o
Bernardo vamos acampar mais cedo.
Relembro-me do
meu pai ter dito que eles acampavam frequentemente.
-Mas, Adriana,
promete-me de que te manténs a salvo enquanto estiver fora.
-Claro que
sim. Entao, ate 2ª feira.
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