domingo, 10 de agosto de 2014

5º capítulo

Encaminhei-me para a aula de Inglês num estado de estupefacção. Nem tinha reparado que a aula ja tinha começado.
-Obrigado por se juntar a nós menina Martins - disse o professor Miguel
Eu fui logo de imediato para o meu lugar, corada.
O resto da manha passou sem que nada ficasse memorizado na minha memória. Eu nao conseguia acreditar naquilo que o Rafael tinha-me dito nesta manha e o seu olhar. Pensei que tivesse sido um sonho extremamente convincente que eu confundi com a realidade.
Dessa forma, estava completamente impaciente e assustada quando eu e a Jessica entramos na cantina. Eu desejava ver a sua cara para me certificar se tinha voltado a ser a mesma pessoa fria e indiferente que eu tinha conhecido nas semanas anteriores.
Fui invadida pela desilusão quando os meus olhos focaram a mesa dele e so viram os seus 4 irmãos. Será que teria ido para casa? Foi a única coisa em que pensei, enquanto me encaminhava para a mesa.
-O Rafael Fernandes está a olhar-te de novo - afirmou a Jéssica, afastando-me da minha abstracção ao ter pronunciado o nome dele - Porquê que será que ele hoje está sentado numa mesa sozinho.
Levantei de imediato a cabeça. Assim que os nossos olhares se cruzaram, ele levantou uma mão e fez um gesto com o seu dedo indicador para que fosse fazer-lhe companhia.
-Está a dirigir-se a 'ti'? - perguntou-me - Jéssica
-Hm, talvez preciso de ajuda nos trabalhos de casa de Biologia. É melhor ir ver o que é que ele quer.
Quando cheguei à sua mesa, mantive-me de pé.
-Porque nao te sentas hoje à minha mesa? - perguntou-me, sorrindo
Eu sentei-me logo de imediato.
Parecia impossível alguém tão perfeito existir.
-Esta situação é fora do vulgar - consegui afirmar finalmente
-Decidi que, ja que vou para o inferno, mais vale fazê-lo de uma forma consumada.
Esperei que ele dissesse algo que tivesse sentido.
Ele voltou a sorrir passados uns momentos.
-Parece que os teus amigos estão zangados comigo por te ter roubado.
-Hão-de sobreviver.
-Mas eu posso nao te devolver - disse ele com um sorriso perverso nos lábios
Eu acabei por me engasgar e ele riu-se.
-Pareces preocupada
-Apenas estou surpreendida... A que se deve isto tudo?
-Ja te tinha dito antes, estou farto de continuar a manter-me afastado de ti. Por isso, desisto
Ele ainda sorria, mas os seus olhos ocres estavam sérios.
-Desistes? - repeti, estando bastante confusa
-Sim, desisto. A partir de agora faço apenas o que me apetecer.
-Baralhaste-me de novo.
O seu espantoso sorriso constrangido ressurgiu.
-Falo sempre de mais quando falo contigo. É um dos problemas.
-Nao te preocupes, eu nao compreendo nada do que dizes - disse-lhe ironicamente
-Estou a contar com isso
-Entao, somos amigos?
-Amigos... - disse ele, indeciso
-Ou nao?
Ele mostrou um sorriso rasgado
-Bem, podemos tentar, mas digo-te de que nao sou um bom amigo para ti.
-Repetes isso demasiadas vezes.
-Porque tu nao me estas a dar ouvidos. Se fosses esperta, evitavas-me.
-Entao... enquanto eu nao estiver a ser esperta, tentaremos ser amigos?
-Sim, parece-me que é mais ou menos isso.
-Em que é que estas a pensar? - perguntou-me com curiosidade
-Estou a tentar compreender quem tu es.
O seu maxilar contraiu-se quando fiz a ultima afirmação.
-Estar a fazer alguns progressos nessa empreitada? - perguntou-me com um tom de voz espontâneo.
-Nao muitos - confessei
Soltou um riso abafado
-Quais são as tuas teorias?
Eu corei nesse momento.
-Nao me dizes? - perguntou ele
Abanei a cabeça.
-É demasiado embaraçoso.
Olhamo-nos fixamente, sem nos rimos.
Passado uns momentos, eu decidi cortar o silencio ao ver que ele estava um pouco tenso.
-O que se passa?
-O teu namorado parece que está a pensar que estou a ser desagradável contigo. Está a deliberar-se se ha-de ou nao vir interromper a nossa discussão - esclareceu ele
-Nao sei a quem te referes, mas provavelmente deves estar enganado
-Nao estou. Ja te disse, maior parte das pessoas são transparentes.
-Excepto eu...
-Sim, excepto tu.
-Nao tens fome? - perguntou-me ele
-Nao. E tu? - decidi perguntar-lhe
-Nao, também nao tenho fome."
-Rafael, posso pedir-te um favor? - perguntei após um instante de hesitação
Ele ficou um pouco desconfiado.
-Depende daquilo que pretendes.
-É so que... pensei apenas... se poderias avisar-me antecipadamente da próxima vez em que resolveres voltar a ignorar-me para o meu próprio bem pff? Apenas para que eu própria me sinta preparada.
-Parece-me ser justo.
-Obrigada.
-Podes, entao, dar-me uma resposta em troca? - interrogou-me ele
-Okay, apenas uma.
-Releva-me 'uma' teoria.
-Nao, isso nao.
-Apenas uma, eu prometo que nao me riu.
-Ris sim.
Eu estava certa quanto a esse facto.
Ele baixou o olhar e depois voltou a olhar na minha direcção.
-Por favor? - disse ele, inclinando-se na minha direcção
-Hã, o quê? - perguntei, um pouco confusa
-Por favor, revela-me uma teoria.
-Hm, bem, foste mordido por uma aranha radioactiva?
Fiquei envergonhada quando comecei a falar.
-Essa teoria nao é lá muito criativa - disse ele
-Lamento, mas é a única que tenho.
-Nao estas nem perto da verdade, o que na verdade me deixa satisfeito. - afirmou ele num tom se provocação
-Nao ha aranhas?
-Nao.
-Nao ha radioactividade?
-Nenhuma.
-Raios! - exclamei - Eu hei-de acabar por descobrir.
-Quem me dera que nao o tentasses fazer.
-Porquê?
-E se eu nao for o herói e sim o vilão?
-És perigoso? - arrisquei-me a adivinhar, com a minha pulsação a acelerar quando reparei nas minhas próprias palavras - mas nao es mau. Nao, nao acredito que sejas mau.
-Estas enganada.
Quando reparei que a cantina estava quase vazia, levantei-me de um salto.
-Vamos chegar atrasados.
-Hoje nao irei à aula.
-Porque nao Rafael?
-Sabes, é saudável faltar-mos às aulas de vez em quando.
-Bem, eu vou. - informei-o
-Entao vemo-nos logo.
Quando cheguei à sala, o professor Jorge ainda nao estava lá.
Pelo material que vi na sala de aula, a aula seria para tirar-mos sangue.
O professor Jorge chegou à sala minutos depois de mim.
-A Cruz Vermelha ira promover uma recolha de sangue em Lisboa no próximo fim de semana e julguei que todos deveriam tomar conhecimento do seu respectivo sangue sanguíneo.
Passado algum tempo, os meus colegas começaram a retirar o seu proprio sangue. Eu comecei-me a sentir mal, nao por me irem retirar o meu sangue (ainda nao tinha chegado a minha vez) mas sim por ter cheirado o cheiro a sangue.
-Adriana, estas bem? - perguntou-me o professor Jorge
-Stor, eu ja sei qual é o meu grupo sanguíneo. - disse eu, sem energia
-Sentes-te desfalecer?
-Sinto, stor. – murmurei
-Alguém pode levar a Adriana à enfermaria? - perguntou o professor à turma
Sabia que o Mike estava desejoso de poder fazê-lo.
-Consegues andar? - perguntou o professor
-Sim, consigo.
Fui entao, com o Mike, ate à enfermeria. Mas antes de lá chegar pedi-lhe se nos poderíamos sentar num banco.
-Deixas-me sentar aqui so um bocadinho, por favor?
Ele ajudou-me.
-E mantém sem a mão no bolso. - avisei-o
-Adriana? - ouvi uma voz de longe. Eu tinha desmaiado
-O que se passa? Ela magoou-se?
-Acho que ela desmaiou. E nem sequer picou o dedo.
-Ei, consegues ouvir-me Adriana?
-Nao, vai-te embora.
O Rafael soltou um sorriso abafado.
-Eu levo-a ate à enfermaria - informou o Rafael ao Mike - Podes voltar para a aula.
-Nao, sou eu quem deve fazê-lo - protestou o Mike
O Rafael ignorou-o e continuou a andar comigo ao colo ate à enfermaria.
-Com que entao desmaia ao ver sangue? - perguntou-me o Rafael
Eu nao respondi.
-E nem era o teu próprio sangue. - continuou
Quando chegamos à enfermaria a menina Alves estava lá.
-Ela desmaiou na aula de Biologia. - disse o Rafael - Ela está apenas um pouco fraca. Estão a retirar sangue lá na aula.
A enfermaria acenou com a cabeça.
-Deita-te aqui um pouco amor; isto ja passa.
-Eu sei - disse eu, suspirando
As náuseas foram desaparecendo.
Graças à ajuda do Rafael, consegui também escapar à aula de E.F.
Permitiram que eu fosse para casa.
-Aonde é que pensas que vais? - perguntou-me o Rafael
-Vou para casa.
-Nao estas em condições de conduzir sozinha. Eu levo-te.
Entrou no meu carro no lugar de condutor. Eu entrei logo a seguir.
Quando chegamos a minha casa, permanecemos os dois dentro do meu carro. Eu atrevi-me a fazer-lhe a ansiosa pergunta que tinha por lhe fazer.
-Os Fernandes adoptaram-te?
-Sim, adoptaram.
Por momentos, hesitei.
-O que aconteceu com os teus pais?
-Morreram ha alguns anos.
-Lamento. - disse
-Mas, na verdade, nao me recordo muito bem deles. O Bruno e a Catarina ja são os meus pais ha muito tempo.
-E tu ama-los.
Nao era uma pergunta, era, de facto, uma afirmação.
-E os teus irmãos?
-Bem, os meus irmãos, por exemplo, o Andre e a Rita vão ficar bastante chateados ao constatarem que o meu carro está na escola e eu nao.
-Desculpa - lamentei - é melhor ires.
-Sim, vemo-nos 2ª feira.
-Amanha nao vais à escola?
-Nao, eu e o Bernardo vamos acampar mais cedo.
Relembro-me do meu pai ter dito que eles acampavam frequentemente.
-Mas, Adriana, promete-me de que te manténs a salvo enquanto estiver fora.

-Claro que sim. Entao, ate 2ª feira.

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