No meu sonho
estava bastante escuro e a luz que existia parecia irradiar a pele do Rafael.
Eu nao conseguia ver a cara dele, apenas as costas que se iam afastando de mim,
deixando-me sozinha. Por mais depressa que eu corresse nunca o conseguia
alcançar; por mais alto que eu o chamasse, ele nunca se virava para mim.
Acordei
totalmente agitada a meio da noite e nao consegui voltar a dormir. A partir
dessa noite, ele esteve SEMPRE presente em todos os meus sonhos.
O mês a seguir
ao acidente foi intranquilo, tenso e vergonhoso, no inicio.
Para minha
grande sorte, fui o centro das atenções durante o resto da semana.
O Tyler estava
insuportável, seguindo-me para todo o lado e pedindo-me desculpa pelo sucedido.
Ninguém
parecia estar preocupado com o Rafael, embora eu ja tivesse explicado inúmeras
vezes que ele tinha sido o herói - afastando-me da trajectória da carrinho e
que também quase foi esmagado.
Jéssica, Mike,
Eric e os outros sempre diziam que nao o tinham visto ate a carrinha ser
removida.
Perguntei-me a
mim mesma o porquê de ninguém o ter visto a uma longa distancia de mim e de
repente estar mesmo a meu lado. De repente apercebi-me de uma causa possível -
ninguém estava tão atento ao Rafael como eu estava.
O Rafael nunca
esteve rodeado por multidões de curiosas pessoas. As pessoas evitavam-no. Como
sempre, os Fernandes e os Costa sentaram-se na mesma mesa, sem comerem, apenas
dialogando entre si. Nenhum deles, mas sobretudo o Rafael, voltou a olhar na
minha direcção.
Quando se
sentou ao meu lado na aula, parecia-me totalmente alheio à minha presença,
estando afastado mais possível de mim.
Eu nao chegava
a outra conclusão a nao der que ele gostaria de nao me ter afastado da
trajectória da carrinha do Tyler.
Ele ja se
encontrava sentado no seu devido lugar quando eu cheguei à aula de Biologia.
-Olá, Rafael.
- disse de uma forma amável tentando mostrar-lhe que me iria comportar
devidamente.
Ele virou um
pouco a cabeça sem olhar para mim, acenou com a cabeça, e logo de seguida olhou
no sentido oposto.
Este foi
apenas o único e ultimo contacto que tivemos. Às vezes olhava para ele, nao
conseguindo evitar - quer fosse na cantina ou no parque de estacionamento.
Os meus sonhos
continuavam.
O Mike, pelo
menos, pareci o único satisfeito com a relação de frieza que existia entre mim
e o meu parceiro de laboratório.
A neve
desapareceu após aquele único e perigoso dia. Mas a chuva continuava a cair
copiosamente e as emanas foram passando.
A Jéssica
informou-me acerca do baile de Primavera, que iria decorrer dentre de 2
semanas, onde são as raparigas que escolhem o seu par e ela estava a pensar em
convidar o Mike.
-Tens a
certeza de que nao te importas? Nao o tencionavas convidar? - insistiu ela.
-Nao, Jess, eu
nao vou - assegurei-lhe.
-Vai ser
incrivelmente divertido.
-Diverte-te
com o Mike - tentei incentiva-la.
O Mike estava
invulgarmente calado hoje e continuou calado ao acompanhar-me ate à aula.
-Pois - disse
o Mike, sempre olhando para o chão - a Jéssica convidou-me para o baile.
-Isso é óptimo
e vais divertir-te com ela - fiz o máximo que pude para a minha voz parecer
animada
-Bem, eu
disse-lhe que teria de reflectir no assunto. Porque estava a perguntar-me se...
estarias a pensar convidar-me.
-Sinceramente
devias aceitar o convite dela.
-Ja convidaste
outra pessoa? - perguntou
-Nao, eu nao
vou ao baile.
-Porque nao? -
insistiu ele
-Vou fazer uma
viagem e vou a Seattle este sábado. - expliquei, fazendo novos planos.
-Nao poderias
ir noutro fim de semana?
-Nao -
respondi - Portanto nao deves fazer a Jess esperar mais, isso seria uma falta
de educação e de respeito.
-Sim, tens
razão. - disse ele e voltou para o seu lugar.
Quando o
professor Jorge começou a falar suspirei e abri os meus olhos.
Fiquei
totalmente surpreendida ao ver que o Rafael estava a observar-me com uma
expressão curiosa estampada no seu rosto.
Retribui-lhe o
olhar, bastante surpreendida, à espera que ele desvia-se o seu olhar. Mas nao
fez, pelo contrario, continuou a fixar os seus olhos nos meus com uma certa
intensidade. As minhas mais começaram a tremer.
-Sr.
Fernandes? - chamou o professor pretendendo ter a resposta a uma pergunta cujo
eu nao ouvi.
-Ciclo de
Krebs. - respondeu o Rafael.
No fim da
aula, quando a campainha tocou finalmente, virei-me de costas para ele para
recolher os meus livros e esperando que ele saísse logo, como ja era de
habitual.
-Adriana?
Reconheci a
voz familiarizada e voltei-me lentamente, de má vontade. Quando finalmente me
voltei ele nada disse.
-O que é que
foi? Ja voltaste a falar comigo foi? - perguntei com uma certa frieza
Os seus lábios
contorceram-se, contendo um sorriso.
-Nao, nem por
isso - confessou.
-Entao o que é
que queres Rafael? - perguntei, mantendo os olhos fechados.
-Desculpa. Eu
sei que estou a ser muito indelicado mas o melhor é ser assim, a serio.
Quando abri os
meus olhos, o seu rosto estava extremamente serio.
-Nao sei a que
te referes - afirmei.
-É melhor nao
sermos amigos, confia em mim. - explicou-me
Fechei os meus
olhos. Ja tinha ouvido aquelas mesmas palavras antes.
-É pena que
nao tenhas percebido isso antes Rafael - disse com uma certa ponta de raiva -
Terias evitado e poupado todo esse arrependimento.
-Arrependimento?
O meu tom de
voz apanhou-o totalmente desprevenido.
-Arrependimento
em relação ao quê Adriana?
-Ao facto de
nao teres simplesmente deixado que a porra da carrinho me tivesse esmagado e
matado.
Ele estava
agora a olhar-me com incredulidade.
-Achas mesmo
que me arrependo de te ter salvo a vida?
-Eu sei que te arrependas de o ter feito -
disse com bastante frieza.
-Tu nao sabes
nada.
Ele estava,
agora sem divida, enfurecido.
Virei-lhe a
cara bruscamente, cerrando os meus maxilares para travar todas as desenfreadas
acusações que desejava dizer-lhe. Recolhi os meus livros e, logo de seguida,
levantei-me da cadeira e dirigi-me para a porta de saída. Tive uma imensa
vontade de realizar uma saúda dramática da sala de aula, mas, para meu azar,
fiquei com a biqueira da minha bota presa na ombreira da porta e os meus livros
caíram. Pensei em deixa-los ali mas depois suspirei e curvei-me para os
apanhar. Mas ele ja estava ali; ja os tinha na sua mão. Entao entregou-mos, com
una expressão dura estampada no seu rosto.
-Obrigada -
disse-lhe, agradecendo o gesto.
Ele semicerrou
is seus olhos.
-Nao tens de
quê. - retorquiu ele.
Endireitei-me
agilmente e fui para o ginásio sem olhar para trás.
A aula de E.F.
foi brutal, pois começamos a praticar Basquetebol. A minha equipa nunca me
passava a bola, o que era fantástico. Nessa aula o meu desempenho estava pior
devido à minha cabeça estar povoado com o Rafael.
Quando a aula
terminou foi um alivio para mim.
Quando ja
estava dentro do meu carro reparei no Eric a acenar-me, com a intenção de me
chamar.
-Olá Eric! -
exclamei
-Olá Adriana
-O que é que
se passa? - perguntei-lhe
-Estava so
aqui a pensar... se irias ao baile comigo.
-Achava que
eram as raparigas que escolhiam o par
-Bem, e são -
reconheceu, um pouco envergonhado
-Bem, obrigada
por me convidares Eric. Mas farei uma viagem de avião ate Seattle nesse dia.
-Ah, talvez
fique para a próxima.
-Claro - disse
eu, nao tendo a intenção de ele levar as minhas palavras demasiado à letra
O Rafael ja se
encontrava a 2 carros de distancia de mim. Recuou com o seu Volvo e parou ali -
para esperar pela sua família.
Enquanto
permaneci ali sentada, reparei no Tyler. Abri o vidro, mas este estava perro,
consegui apenas abri-lo ate a meio.
-Desculpa
Tyler, estou encurralada pelos Fernandes.
Estava,
sinceramente, aborrecida.
-Eu sei; queria
apenas pedir-te algo. -esperou por um momento - Convidas-me para o baile?
-Estarei fora
do país.
-Pois, o Mike
ja tinha falado nisso - confessou
-Entao para
quê que... ?
-Estava apenas
com esperança que estivesses a rejeitar o convite do Mike de uma forma
simpática.
-Desculpa
Tyler, mas estarei mesmo fora do país.
-Nao faz mal.
Ainda ha o baile de finalistas. - afirmou ele
Quando cheguei
a casa, decidi preparar "enchiladas" de frango para o jantar. O
telefone tocou: era a Jéssica que estava radiante; Mike tinha-a comunicado que
aceitaria o seu convite. Festejei com ela durante alguns instantes enquanto
mexia o preparado. Ela tinha que desligar, queria comunicar também à Angela e à
Lauren, sugeri também para que a Angela convidasse o Eric e a Lauren convidasse
o Tyler.
Logo que
desliguei o telefone, concentrei-me no jantar - principalmente em cortar o
frango dm cubos pois nao queria arriscar-me a uma ida às urgências. A minha
cabeça dava voltas ao tentar analisar cada palavra do Rafael que tinha dito hoje.
O que queria dizer ele quando disse que era melhor nao sermos amigos?
O meu estômago
contorceu-se ao pensar numa resposta: talvez ele tenha dito que nao possamos
ser amigos porque ele nao estava minimamente interessado em mim.
Era obvio que
ele nao estava interessado em mim - os meus olhos começaram a arder decidi à
reacção retardada das cebolas. Eu nao era interessante.
E ele era: Interessante, brilhante, misterioso, perfeito, lindo e,
possivelmente, capaz de levantar automóveis em peso apenas com uma mão.
Bem, eu iria
deixa-lo em paz. Eu iria deixa-lo em
paz. Concentrei-nos nos meus pensamentos em terminar as "enchiladas"
e coloca-las no forno.
O meu pai
chegou a casa e sentiu logo o cheiro da comida. Servi a comida na mesa e
sentei-me a comer.
-Pai? -
interrompi-o quando ele ja estava quase a terminar a refeição?
-Sim, Adriana?
-Hm, queria
apenas informar-te de que vou fazer uma viagem a Coimbra deste sábado a 1
semana... se nao houver problema claro.
Nao queria
parecer estar a pedir-lhe autorização.
-Porquê?
-Bem, eu gosto
de ler livros ingleses e aqui os recursos da biblioteca são bastante limitados,
e podia também comprar algumas roupas.
-Vais sozinha?
- perguntou-me ele
-Vou
-Coimbra é uma
cidade bastante grande, poderás perder-te. Queres que vá contigo?
-Nao é
necessário pai. Provavelmente limitar-me-ei a passar todo dia em gabinetes de
prova.
-Oh, está bem
-Obrigada pai!
- exclamei, sorrindo.
-Estas de
volta a tempo do baile?
-Eu nao vou ao
baile
-Tens razão -
percebeu logo de imediato.
No dia seguinte,
quando cheguei ao parque de estacionamento estacionei o mais longe possível do
Volvo prateado. Quando saí do meu carro, atrapalhei-me ao pegar na chave e esta
caiu. Quando fui apanha-la, uma mão branca agarrou-a antes de que eu o pudesse
ter feito. Era o Rafael Fernandes que estava ao meu lado, completamente
descontraído ao meu lado.
-Como é que fizeste isto? - perguntei-lhe irritada
-Como fiz o
quê?
Ele erguia a
minha chave no ar enquanto falava, quando a tentei alcançar ele deixou-a cair
na palma da minha mão.
-Aparecer
vindo do nada.
-Adriana, eu
nao tenho a culpa de que tu tenhas uma excepcional falta de observação.
A sua voz
estava mais serena do que o normal.
Lancei-lhe um
amor mal-humorado. Os seus olhos estavam claros, de uma cor mel dourado.
-Qual é que
foi o motivo do engarrafamento da noite passada? Pensei que andavas a fingir
que eu nao existo e nao a matar-me de irritação.
-Foi pelo bem
do Tyler, tinha que lhe dar uma oportunidade.
-Seu! -
exclamei bastante irritada.
-E se queres
saber, nao ando a fingir que nao existes - prosseguiu
-Entao, andas
mesmo a matar-me de irritação ja que a carrinha do Tyler nao se encarregou
disso? - perguntei-lhe com raiva. Ele cerrou os lábios.
-Adriana, es
completamente absurda. - afirmou ele com frieza
Eu nesse
momento virei-lhe as costas e comecei a andar.
-Espera! -
exclamou ele
Continuei a
andar, ignorando-o.
-Desculpa, foi
indelicado da minha parte - disse ele enquanto andávamos
-Porquê que
nao me deixas em paz? - resmunguei
-Queria
perguntar-te uma coisa.
-Que coisa?
-Estava a
pensar se, deste sábado a uma semana, tu sabes, é o baile da Primavera...
-Estas a
tentar armar-te em engraçadinho?
-Importaste de
me deixar terminar?
Esperei.
-Ouvi-te dizer
que ias a Seattle, e queria saber se querias companhia.
Nao estava à
espera.
-Ahn?
-Queres
companhia para Seattle?
-De quem? -
perguntei-lhe, baralhada
-De mim,
obviamente.
-Porquê? - eu
estava ainda aturdida.
-Bem, eu
tencionava ir a Seattle durante estas próximas semanas.
Decidi
finalmente falar.
-Francamente,
Rafael - senti um frémito quando proferi o seu nome e detestei tal sensação -,
nao consigo acompanhar-te e pensei que nao querias ser meu amigo.
-Eu disse que
era melhor nao sermos e nao que nao queria que fossemos.
-Oh, obrigada,
agora está tudo esclarecido.
Foi profundo
sarcasmo. Apercebi-me de que tínhamos parado de andar novamente. Estávamos
agira protegidos debaixo do tecto da cantina. Podendo eu, finalmente, olhar com
mais facilidade para a cara dele, o que nao era favorável à minha clareza de
raciocínio.
"-Seria
mais... prudente que tu nao fosses
minha amiga. - explicou-me ele - Mas sinceramente ja estou farto de continuar a
manter-me afastado de ti, Adriana.
O seu olhar
tornou-se intenção ao pronunciar a ultima frase. Nesse momento, admito-o, de
que nao me lembrava como respirava.
-Vamos juntos
para Coimbra? - perguntou-me, ainda com mais intensidade.
Eu ainda nao
conseguia falar, devido às suas palavras eu estava paralisada, pelo que me
limitei apenas a acenar com a minha cabeça.
Ele sorriu-me
ao ver-me assim por breves instantes e, logo de seguida, a sua cara ficou
seria.
-Devias
manter-te afastada de mim Adriana - disse-me ele - Vemo-nos na aula.
Ele virou-se e
voltou para trás pelo mesmo caminho que tínhamos andado.
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