sexta-feira, 8 de agosto de 2014

4º capítulo

No meu sonho estava bastante escuro e a luz que existia parecia irradiar a pele do Rafael. Eu nao conseguia ver a cara dele, apenas as costas que se iam afastando de mim, deixando-me sozinha. Por mais depressa que eu corresse nunca o conseguia alcançar; por mais alto que eu o chamasse, ele nunca se virava para mim.
Acordei totalmente agitada a meio da noite e nao consegui voltar a dormir. A partir dessa noite, ele esteve SEMPRE presente em todos os meus sonhos.
O mês a seguir ao acidente foi intranquilo, tenso e vergonhoso, no inicio.
Para minha grande sorte, fui o centro das atenções durante o resto da semana.
O Tyler estava insuportável, seguindo-me para todo o lado e pedindo-me desculpa pelo sucedido.
Ninguém parecia estar preocupado com o Rafael, embora eu ja tivesse explicado inúmeras vezes que ele tinha sido o herói - afastando-me da trajectória da carrinho e que também quase foi esmagado.
Jéssica, Mike, Eric e os outros sempre diziam que nao o tinham visto ate a carrinha ser removida.
Perguntei-me a mim mesma o porquê de ninguém o ter visto a uma longa distancia de mim e de repente estar mesmo a meu lado. De repente apercebi-me de uma causa possível - ninguém estava tão atento ao Rafael como eu estava.
O Rafael nunca esteve rodeado por multidões de curiosas pessoas. As pessoas evitavam-no. Como sempre, os Fernandes e os Costa sentaram-se na mesma mesa, sem comerem, apenas dialogando entre si. Nenhum deles, mas sobretudo o Rafael, voltou a olhar na minha direcção.
Quando se sentou ao meu lado na aula, parecia-me totalmente alheio à minha presença, estando afastado mais possível de mim.
Eu nao chegava a outra conclusão a nao der que ele gostaria de nao me ter afastado da trajectória da carrinha do Tyler.
Ele ja se encontrava sentado no seu devido lugar quando eu cheguei à aula de Biologia.
-Olá, Rafael. - disse de uma forma amável tentando mostrar-lhe que me iria comportar devidamente.
Ele virou um pouco a cabeça sem olhar para mim, acenou com a cabeça, e logo de seguida olhou no sentido oposto.
Este foi apenas o único e ultimo contacto que tivemos. Às vezes olhava para ele, nao conseguindo evitar - quer fosse na cantina ou no parque de estacionamento.
Os meus sonhos continuavam.
O Mike, pelo menos, pareci o único satisfeito com a relação de frieza que existia entre mim e o meu parceiro de laboratório.
A neve desapareceu após aquele único e perigoso dia. Mas a chuva continuava a cair copiosamente e as emanas foram passando.
A Jéssica informou-me acerca do baile de Primavera, que iria decorrer dentre de 2 semanas, onde são as raparigas que escolhem o seu par e ela estava a pensar em convidar o Mike.
-Tens a certeza de que nao te importas? Nao o tencionavas convidar? - insistiu ela.
-Nao, Jess, eu nao vou - assegurei-lhe.
-Vai ser incrivelmente divertido.
-Diverte-te com o Mike - tentei incentiva-la.
O Mike estava invulgarmente calado hoje e continuou calado ao acompanhar-me ate à aula.
-Pois - disse o Mike, sempre olhando para o chão - a Jéssica convidou-me para o baile.
-Isso é óptimo e vais divertir-te com ela - fiz o máximo que pude para a minha voz parecer animada
-Bem, eu disse-lhe que teria de reflectir no assunto. Porque estava a perguntar-me se... estarias a pensar convidar-me.
-Sinceramente devias aceitar o convite dela.
-Ja convidaste outra pessoa? - perguntou
-Nao, eu nao vou ao baile.
-Porque nao? - insistiu ele
-Vou fazer uma viagem e vou a Seattle este sábado. - expliquei, fazendo novos planos.
-Nao poderias ir noutro fim de semana?
-Nao - respondi - Portanto nao deves fazer a Jess esperar mais, isso seria uma falta de educação e de respeito.
-Sim, tens razão. - disse ele e voltou para o seu lugar.
Quando o professor Jorge começou a falar suspirei e abri os meus olhos.
Fiquei totalmente surpreendida ao ver que o Rafael estava a observar-me com uma expressão curiosa estampada no seu rosto.
Retribui-lhe o olhar, bastante surpreendida, à espera que ele desvia-se o seu olhar. Mas nao fez, pelo contrario, continuou a fixar os seus olhos nos meus com uma certa intensidade. As minhas mais começaram a tremer.
-Sr. Fernandes? - chamou o professor pretendendo ter a resposta a uma pergunta cujo eu nao ouvi.
-Ciclo de Krebs. - respondeu o Rafael.
No fim da aula, quando a campainha tocou finalmente, virei-me de costas para ele para recolher os meus livros e esperando que ele saísse logo, como ja era de habitual.
-Adriana?
Reconheci a voz familiarizada e voltei-me lentamente, de má vontade. Quando finalmente me voltei ele nada disse.
-O que é que foi? Ja voltaste a falar comigo foi? - perguntei com uma certa frieza
Os seus lábios contorceram-se, contendo um sorriso.
-Nao, nem por isso - confessou.
-Entao o que é que queres Rafael? - perguntei, mantendo os olhos fechados.
-Desculpa. Eu sei que estou a ser muito indelicado mas o melhor é ser assim, a serio.
Quando abri os meus olhos, o seu rosto estava extremamente serio.
-Nao sei a que te referes - afirmei.
-É melhor nao sermos amigos, confia em mim. - explicou-me
Fechei os meus olhos. Ja tinha ouvido aquelas mesmas palavras antes.
-É pena que nao tenhas percebido isso antes Rafael - disse com uma certa ponta de raiva - Terias evitado e poupado todo esse arrependimento.
-Arrependimento?
O meu tom de voz apanhou-o totalmente desprevenido.
-Arrependimento em relação ao quê Adriana?
-Ao facto de nao teres simplesmente deixado que a porra da carrinho me tivesse esmagado e matado.
Ele estava agora a olhar-me com incredulidade.
-Achas mesmo que me arrependo de te ter salvo a vida?
-Eu sei que te arrependas de o ter feito - disse com bastante frieza.
-Tu nao sabes nada.
Ele estava, agora sem divida, enfurecido.
Virei-lhe a cara bruscamente, cerrando os meus maxilares para travar todas as desenfreadas acusações que desejava dizer-lhe. Recolhi os meus livros e, logo de seguida, levantei-me da cadeira e dirigi-me para a porta de saída. Tive uma imensa vontade de realizar uma saúda dramática da sala de aula, mas, para meu azar, fiquei com a biqueira da minha bota presa na ombreira da porta e os meus livros caíram. Pensei em deixa-los ali mas depois suspirei e curvei-me para os apanhar. Mas ele ja estava ali; ja os tinha na sua mão. Entao entregou-mos, com una expressão dura estampada no seu rosto.
-Obrigada - disse-lhe, agradecendo o gesto.
Ele semicerrou is seus olhos.
-Nao tens de quê. - retorquiu ele.
Endireitei-me agilmente e fui para o ginásio sem olhar para trás.
A aula de E.F. foi brutal, pois começamos a praticar Basquetebol. A minha equipa nunca me passava a bola, o que era fantástico. Nessa aula o meu desempenho estava pior devido à minha cabeça estar povoado com o Rafael.
Quando a aula terminou foi um alivio para mim.
Quando ja estava dentro do meu carro reparei no Eric a acenar-me, com a intenção de me chamar.
-Olá Eric! - exclamei
-Olá Adriana
-O que é que se passa? - perguntei-lhe
-Estava so aqui a pensar... se irias ao baile comigo.
-Achava que eram as raparigas que escolhiam o par
-Bem, e são - reconheceu, um pouco envergonhado
-Bem, obrigada por me convidares Eric. Mas farei uma viagem de avião ate Seattle nesse dia.
-Ah, talvez fique para a próxima.
-Claro - disse eu, nao tendo a intenção de ele levar as minhas palavras demasiado à letra
O Rafael ja se encontrava a 2 carros de distancia de mim. Recuou com o seu Volvo e parou ali - para esperar pela sua família.
Enquanto permaneci ali sentada, reparei no Tyler. Abri o vidro, mas este estava perro, consegui apenas abri-lo ate a meio.
-Desculpa Tyler, estou encurralada pelos Fernandes.
Estava, sinceramente, aborrecida.
-Eu sei; queria apenas pedir-te algo. -esperou por um momento - Convidas-me para o baile?
-Estarei fora do país.
-Pois, o Mike ja tinha falado nisso - confessou
-Entao para quê que... ?
-Estava apenas com esperança que estivesses a rejeitar o convite do Mike de uma forma simpática.
-Desculpa Tyler, mas estarei mesmo fora do país.
-Nao faz mal. Ainda ha o baile de finalistas. - afirmou ele
Quando cheguei a casa, decidi preparar "enchiladas" de frango para o jantar. O telefone tocou: era a Jéssica que estava radiante; Mike tinha-a comunicado que aceitaria o seu convite. Festejei com ela durante alguns instantes enquanto mexia o preparado. Ela tinha que desligar, queria comunicar também à Angela e à Lauren, sugeri também para que a Angela convidasse o Eric e a Lauren convidasse o Tyler.
Logo que desliguei o telefone, concentrei-me no jantar - principalmente em cortar o frango dm cubos pois nao queria arriscar-me a uma ida às urgências. A minha cabeça dava voltas ao tentar analisar cada palavra do Rafael que tinha dito hoje. O que queria dizer ele quando disse que era melhor nao sermos amigos?
O meu estômago contorceu-se ao pensar numa resposta: talvez ele tenha dito que nao possamos ser amigos porque ele nao estava minimamente interessado em mim.
Era obvio que ele nao estava interessado em mim - os meus olhos começaram a arder decidi à reacção retardada das cebolas. Eu nao era interessante. E ele era: Interessante, brilhante, misterioso, perfeito, lindo e, possivelmente, capaz de levantar automóveis em peso apenas com uma mão.
Bem, eu iria deixa-lo em paz. Eu iria deixa-lo em paz. Concentrei-nos nos meus pensamentos em terminar as "enchiladas" e coloca-las no forno.
O meu pai chegou a casa e sentiu logo o cheiro da comida. Servi a comida na mesa e sentei-me a comer.
-Pai? - interrompi-o quando ele ja estava quase a terminar a refeição?
-Sim, Adriana?
-Hm, queria apenas informar-te de que vou fazer uma viagem a Coimbra deste sábado a 1 semana... se nao houver problema claro.
Nao queria parecer estar a pedir-lhe autorização.
-Porquê?
-Bem, eu gosto de ler livros ingleses e aqui os recursos da biblioteca são bastante limitados, e podia também comprar algumas roupas.
-Vais sozinha? - perguntou-me ele
-Vou
-Coimbra é uma cidade bastante grande, poderás perder-te. Queres que vá contigo?
-Nao é necessário pai. Provavelmente limitar-me-ei a passar todo dia em gabinetes de prova.
-Oh, está bem
-Obrigada pai! - exclamei, sorrindo.
-Estas de volta a tempo do baile?
-Eu nao vou ao baile
-Tens razão - percebeu logo de imediato.
No dia seguinte, quando cheguei ao parque de estacionamento estacionei o mais longe possível do Volvo prateado. Quando saí do meu carro, atrapalhei-me ao pegar na chave e esta caiu. Quando fui apanha-la, uma mão branca agarrou-a antes de que eu o pudesse ter feito. Era o Rafael Fernandes que estava ao meu lado, completamente descontraído ao meu lado.
-Como é que fizeste isto? - perguntei-lhe irritada
-Como fiz o quê?
Ele erguia a minha chave no ar enquanto falava, quando a tentei alcançar ele deixou-a cair na palma da minha mão.
-Aparecer vindo do nada.
-Adriana, eu nao tenho a culpa de que tu tenhas uma excepcional falta de observação.
A sua voz estava mais serena do que o normal.
Lancei-lhe um amor mal-humorado. Os seus olhos estavam claros, de uma cor mel dourado.
-Qual é que foi o motivo do engarrafamento da noite passada? Pensei que andavas a fingir que eu nao existo e nao a matar-me de irritação.
-Foi pelo bem do Tyler, tinha que lhe dar uma oportunidade.
-Seu! - exclamei bastante irritada.
-E se queres saber, nao ando a fingir que nao existes - prosseguiu
-Entao, andas mesmo a matar-me de irritação ja que a carrinha do Tyler nao se encarregou disso? - perguntei-lhe com raiva. Ele cerrou os lábios.
-Adriana, es completamente absurda. - afirmou ele com frieza
Eu nesse momento virei-lhe as costas e comecei a andar.
-Espera! - exclamou ele
Continuei a andar, ignorando-o.
-Desculpa, foi indelicado da minha parte - disse ele enquanto andávamos
-Porquê que nao me deixas em paz? - resmunguei
-Queria perguntar-te uma coisa.
-Que coisa?
-Estava a pensar se, deste sábado a uma semana, tu sabes, é o baile da Primavera...
-Estas a tentar armar-te em engraçadinho?
-Importaste de me deixar terminar?
Esperei.
-Ouvi-te dizer que ias a Seattle, e queria saber se querias companhia.
Nao estava à espera.
-Ahn?
-Queres companhia para Seattle?
-De quem? - perguntei-lhe, baralhada
-De mim, obviamente.
-Porquê? - eu estava ainda aturdida.
-Bem, eu tencionava ir a Seattle durante estas próximas semanas.
Decidi finalmente falar.
-Francamente, Rafael - senti um frémito quando proferi o seu nome e detestei tal sensação -, nao consigo acompanhar-te e pensei que nao querias ser meu amigo.
-Eu disse que era melhor nao sermos e nao que nao queria que fossemos.
-Oh, obrigada, agora está tudo esclarecido.
Foi profundo sarcasmo. Apercebi-me de que tínhamos parado de andar novamente. Estávamos agira protegidos debaixo do tecto da cantina. Podendo eu, finalmente, olhar com mais facilidade para a cara dele, o que nao era favorável à minha clareza de raciocínio.
"-Seria mais... prudente que tu nao fosses minha amiga. - explicou-me ele - Mas sinceramente ja estou farto de continuar a manter-me afastado de ti, Adriana.
O seu olhar tornou-se intenção ao pronunciar a ultima frase. Nesse momento, admito-o, de que nao me lembrava como respirava.
-Vamos juntos para Coimbra? - perguntou-me, ainda com mais intensidade.
Eu ainda nao conseguia falar, devido às suas palavras eu estava paralisada, pelo que me limitei apenas a acenar com a minha cabeça.
Ele sorriu-me ao ver-me assim por breves instantes e, logo de seguida, a sua cara ficou seria.
-Devias manter-te afastada de mim Adriana - disse-me ele - Vemo-nos na aula.

Ele virou-se e voltou para trás pelo mesmo caminho que tínhamos andado.

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