A paisagem
era, evidentemente, bela; eu nao podia negá-lo. Tudo era verde: as arvores, os
troncos revestidos de musgo, os ramos em forma de abobada, o solo coberto de
fetos. O próprio ar, filtrado pelas folhas, assumia ima tonalidade verde.
Apressei-me a
desviar o olhar, enrubescendo novamente.
Também este
nunca relaxou.
Permaneci
imóvel no meu lugar, lançando um olhar vazio na direcção em que ele seguira.
Comecei a
recolher os meus pertences lentamente, tentando refrear a raiva que me invadia,
com receio de que os meus olhos se enchessem de lagrimas.
Por algum
motivo, havia uma ligação estabelecida entre o meu temperamento e os meus
canais lacrimais.
Levantei o
olhar e deparei com um rapaz giro com cara de bébé, cabelo louro-claro
cuidadosamente moldado com gel, alinhadamente espetado, que me sorria de um
modo amistoso.
Vivera na
Califórnia ate aos 10 anos e, por conseguinte, queria saber o que eu pensava do
sol.
Foi a pessoa
mais simpática que conheci neste dia.
Sorri-lhe
antes de passar pela porta do balneário feminino. Ele era amável e um manifesto
admirador meu, mas tal nao era suficiente para atenuar a minha irritação.
A chuva
afastara-se, mas o vento estava forte e maua frio. Apertei os braços em torno
do meu corpo.
Quando entrei
no gabinete aconchegadamente, quase dei meia volta e saí pelo mesmo caminho.
Voltei a
reconhecer aquele desgrenhado cabelo cor de bronze. Nao pareceu aperceber-se da
minha entrada. Fiquei de pé, encostada à parede do fundo, esperando que a
recepcionista pudesse atender-me.
Ele discutia
com ela num tom de voz grave e sedutor. Depressa compreendi o cerne da questão.
A expressão
estampada no seu rosto deveria ser motivada por uma exasperação completamente
distinta. Nao era possível que aquele desconhecido tivesse sentido uma
antipatia tão intensa e repentina por mim.
A porta
abriu-se de novo e o vento frio irrompeu subitamente pela sala, soprando os
documentos que se encontravam sobre a secretaria e fazendo com que os meus
cabelos redemoinhassem à volta do meu rosto.
A rapariga que
entrou limitou-se a dirigir-se à secretaria, colocar um bilhete no cesto de
arame e sair, mas as costas dele ficaram rígidas e virou-se lentamente para me
fitar - o seu rosto era absurdamente formoso - com um olhar penetrante e
repleto de ódio.
Por um
instante, senti um frémito de autentico medo, que fez com que os pêlos dos meus
braços se eriçassem.
O olhar durou
apenas um segundo, mas enregelou-me mais do que o vento gélido.
Virou-se
novamente para a recepcionista.
- Entao,
esqueça - disse ele apressadamente num tom de voz que parecia aveludado. - Vejo
que é impossível. Muito obrigado pela sua ajuda.
Em seguida,
deu meia volta sem voltar a pousar os olhos em mim e desapareceu porta fora. Aproximei-me
devagarinho da secretaria, com o rosto inusitadamente branco em vez de
vermelho, e entreguei o pedaço de papel assinado à recepcionista.
-Como correu o
teu 1º dia, querida? - perguntou maternalmente.
-Muito bem -
menti, com a voz débil.
Nao pareceu
ficar convencida.
Quando entrei
no carro, que era praticamente a ultima viatura que se encontrava no parque de
estacionamento. Parecia um refugio, sendo ja o que eu tinha de mais semelhante
a um lar naquele buraco verde e ultimo. Permaneci sentada no seu interior
durante alguns momentos, lançando apenas o olhar vazio pelo pára-brisas, mas
depressa tive frio suficiente para necessitar do aquecimento, pelo que liguei a
ignição e o motor roncou ao entrar em funcionamento.
O dia seguinte
foi melhor ... e pior.
Foi melhor
porque ainda nao chovia, embora as nuvens fossem densas e opacas. Foi mais
fácil, pois eu sabia o que esperar no meu dia. Mike sentou-se a meu lado na
aula de Inglês e acompanhou-me ate à sala da aula seguinte, sob o constante
olhar feroz de Eric, do clube de Xadrez, o que era lisonjeados. Ao almoço,
sentei-me a uma mesa com um grande grupo, que incluía Mike, Erica, Jéssica e
varias outras pessoas de cujos nomes e caras agora me recordava. Comecei a ter
a sensação de que caminhava sobre agua; em vez de me afogar nela.
pior porque
estava cansada; ainda nao conseguia dormir com o vento a assobiar em torno da
casa. Foi pior péssimo porque tive de jogar voleibol e, da única vez que nao me
afastei da trajectória da bola, atingi a minha colega de equipa na cabeça. Foi,
por fim, pior porque "ele" nao apareceu na escola.
Fiz com que o
leão cobarde parecesse o exterminador.
No entanto,
quando entrei na cantina com Jéssica - tentando evitar que os meus olhos
esquadrinhassem o local em busca "dele" e fracassando redondamente -,
vi que os seus 4 irmãos de aparência diversa estavam sentados à mesma mesa e
"ele" nao se encontrava lá.
Mike
interceptou-nos e conduziu-nos ate à sua mesa. Jéssica parecia enlevada por
aquela atenção e os seus amigos depressa se juntaram a nós. Porém, enquanto
tentava escutar a sua trivial tagarelice, sentia-me terrivelmente pouco à
vontade, aguardando nervosa com o momento da sua chegada. Esperava que ele
simplesmente me ignorasse quando aparecesse e demonstrasse que a minha suspeita
era falsa.
Caminhei ate à
aula de Biologia de uma forma mais confiante depois de, ate ao final do almoço,
ele ainda nao ter aparecido. Sustive a respiração ao chegar à porta, mas
"ele" também nao estava presente. Respirei fundo e dirigi-me ao meu
lugar.
Permaneceu
junto da minha bancada ate ao toque da campainha.
Então,
sorriu-me melancolicamente e foi sentar-se junto de uma rapariga com aparelho
dentário e uma permanente mal conseguida.
Numa cidade
como esta, onde todos controlavam todos, a diplomacia era essencial. Eu nunca
tivera grande tacto; nao tinha qualquer tipo de pratica em lidar com rapazes
excessivamente amáveis.
Disse isto a
mim mesma repetidas vezes, mas nao conseguia livrar-me da incomoda suspeita de
que era eu o motivo da sua ausência. Era ridículo e egoísta pensar que eu podia
afectar alguém de maneira tão intensa. Era impossível, mas, mesmo assim, nao
conseguia deixar de me preocupar com a possibilidade de tal corresponder à
verdade.
Quando o dia
de aulas finalmente terminou e o rubor provocado pelo incidente no jogo de
voleibol começava a desvanecer-se das minhas faces, voltei rapidamente a vestir
as minhas calças de ganga e a camisola azul-marinho. Apressei-me a sair do
balneário feminino, satisfeita por constatar que, por enquanto, me esquivara
com êxito do meu amigo "retriever". Encaminhei-me entao para o parque
de estacionamento, agora apinhado de alunos que partiam. Entrei no meu carro e
remexi no interior da minha mala a certificar-me de que tinha tudo aquilo de
que necessitava.
Na noite
anterior, descobrira que o meu pai nao sabia cozinhar muito mais do que ovos
estrelados e toucinho fumado, devido a isso pedi-lhe que me fossem confiadas as
tarefas da cozinha. Morto para isso estava ele. Cheguei à conclusão de que ele
nao tinha comida em casa, dessa forma, com a lista de compras e o dinheiro do
frasco que era guardado no lava-louça e que se podia ler no rotulo
"dinheiro para comida", dirigi-me para o Thriftway.
Liguei o
ensurdecedor motor do meu carro e recuei cuidadosamente, ocupando um lugar na
fila de carros que esperavam para sair do parque de estacionamento. Enquanto
esperava vi os dois Fernandes e os gémeos Costa entrarem no seu carro.
Tratava-se de um Volvo reluzente. Ainda nao tinha reparado nas suas roupas,
pois fiquei demasiado hipnotizada com os seus rostos - tornava-se obvio que
todos estavam excepcionalmente bem vestidos; de modo simples, mas com roupas
que denotavam subtilmente origens de marca.
Parecia
excessivo o facto de eles terem boa aparência e, ao mesmo tempo, dinheiro, mas,
tanto quanto me é possível observar, a vida funciona desta forma na maior parte
das vezes. Nao parecia, porém, proporcionar-lhes a aceitação naquele lugar.
Nao, eu nao
estava a acreditar inteiramente nisto. Deviam ser eles que desejavam viver
isolados; nao conseguia imaginar nenhuma porta que nao fosse aberta por aquele
grau de beleza.
Olharam para o
meu carro quando passei por eles, tal e qual como as outras pessoas.
O Thriftway
nao ficava muito longe da escola; situava-se a algumas ruas de distancia, para
Sul, à saída da estrada nacional.
Em casa, eu é
que me encarregava das compras e dediquem-me de boa vontade à tarefa com que ja
estava familiarizada. O interior da casa era suficientemente grande para que eu
nao conseguisse ouvir a chuva a bater no telhado e nao fosse relembrada do local
onde me encontrava.
Assim que
cheguei a casa, descarreguei as compras que tinha feito dos sacos, guardando-as
onde encontrasse espaço livre. Achei que o meu pai nao se iria importar com
isso. Envolvi as batatas em papel de alumínio e coloquei-as no forno para que
assassem, mergulhei um bife na marinada e equilibrei-o em cima de uma enbalagem
de ovos no frigorifico.
Logo que
conclui essa tarefa, levei a minha pasta com livros para cima. Antes de ir
fazer is trabalhos de casa fui vestir umas calças de fato de treino, apanhei o
meu cabelo húmido num rabo-de-cavalo e fui ver o meu correio eletrônico. Tinha
três mensagens, todas da minha mãe.
Ela estava
preocupada por nao lhe responder e na ultima disse que se nao lhe respondesse
ate às 17:30h do dia de hoje, telefonaria ao meu pai. Para grande sorte minha
ainda tinha 1h mas, como sempre, a minha mãe antecipava-se sempre antes. Entao
enviei-lhe a seguinte mensagem: 'Mae, acalma-te. Estou a escrever-te agora. Nao
tomes nenhuma atitude precipitada pff.' Logo de seguida continuei a escrever:
'Está tudo bem. É claro que o tempo aqui está mau, estava apenas a arranjar
tema para te escrever. Conheci e fiz amigos lá na escola nos quais se sentam
comigo ao almoço. A tua blusa está na lavandaria e ja a devias ter ido buscar
na 6ª feira. O pai comprou-me um carro, acreditas? Adoro o carro. Também sinto
imensas saudades tuas. Escrevo-te em breve mas nao vou ver o meu correio
eletrônico de 5 em 5min. Descansa e respira. Gosto muito de ti.' E enviei essa
mensagem, saí do correio eletrônico e dediquei-me aos trabalhos de casa.
Decidi entao
ler 'O Monte dos Vendavais' - que era o romance que estávamos a estudar, de
momento, na disciplina de Inglês - e era isso que estava a fazer quando o meu
pai chegou a casa. Tonha perdido a noção do tempo e precipitei-me para o andar
de baixo com o fim de retirar as batatas e colocar o bife a grelhar.
-Filha?
-Olá pai, bem
vindo a casa.
-Obrigado.
O que vai ser
o jantar? - perguntou-me de uma forma cautelosa.
A minha mãe
era uma cozinheira imaginativa e nem sempre as suas experiências eram
combustíveis. Fiquei surpreendida, mas também triste, por ele parecer guardar
lembranças tão antigas.
-Bife com
batatas – respondi.
Pareceu ficar
aliviado.
Dava-me a
impressão de estar constrangido ao ficar na cozinho sem fazer nada; arrastou-se
pesadamente ate à sala de estar para ir ver televisão enquanto eu preparava o
jantar. Nós os dois sentíamo-nos mais à vontade desta forma. Preparei também
uma salada enquanto esperava que os bifes cozinhassem e pus a mesa.
Assim que
estava tudo pronto chamei-o e ele sentiu o cheiro da comida de forma
apreciadora quando entrou na cozinha.
-Cheira bem,
filha.
-Obrigada.
Comemos em
silencio durante alguns minutos, o que nao era, de modo nenhum, constrangedor.
Nenhum de nós se incomodava com o silencio. Ate que ele quebrou o silencio e
disse:
-Entao, que
tal te parece a escola? Fizeste algumas amizades? - perguntou-me ele enquanto
se servia pela 2 vez.
-Bem, tenho
algumas aulas com uma rapariga chamada Jéssica. Sento-me na companhia dos
amigos dela à hora do almoço. Também ha um rapaz, o Mike, que é bastante
amável. Todos são muito simpáticos. Com uma excepção de relevo.
-Ja agora pai,
conheces a família Fernandes? - perguntei-lhe de um modo hesitante.
-A família do Dr. Fernandes? Claro que sim, o
Dr. Fernandes é um grande homem.
-Eles, os
filhos, são um pouco diferentes. Nao parecem integrarem-se muito bem lá na
escola.
Quando afirmei
isso ao meu pai, ele surpreendeu-me ao parecer ficar zangado com tal facto dito
por mim.
-Pessoas desta
cidade - resmungou. - O Dr. Fernandes é um cirurgião excelente que poderia,
possivelmente, trabalhar em qualquer hospital do mundo e ganhar dez vezes mais
o salário que ganha aqui - ele continuou, aumentando a tom de voz. - Temos
muita sorte em tê-lo aqui, por a sua mulher ter querido viver numa cidade
pequena. Ele é uma mais-valia para a comunidade e todos os miúdos são educados
e bem-comportados. - deteve-se por um instante.
-Quando eles
se mudaram para ca, eu próprio tive as minhas duvidas acerca de todos esses
adolescentes. Pensei que me trouxessem problemas mas são todos muito maduros.
Nenhum deles me causou o mínimo incomodo. Mas so por serem tecem-chegados, as
pessoas têm que bisbilhotar.
Foi o discurso
mais longo que alguma vez ouvi do meu pai.
Retrocedi.
-A mim,
parecem-me bastante simpáticos.
-Entao devias
conhecer o medico. - afirmou o meu pai, rindo-se. - Felizmente ele tem um
casamento feliz. Muitas enfermeiras têm dificuldade em concentrarem-se no
trabalho quando ele está por perto.
Quando
acabamos de comer ele levantou a mesa enquanto eu começava a tratar da louça.
Logo que acabei de lavar a louça dirigi-me de má vontade ao meu quarto para
realizar os meus trabalhos de casa de Matemática.
Por fim, tive
finalmente uma noite calma. Acabei por adormecer depressa porque me sentia
exausta.
Ao longo do
resto da semana, nao ocorreram grandes acontecimentos. Quando chegou a 6ª
feira, eu ja conhecia reconhecer, se nao mesmo chamar pelo nome, quase todos os
alunos da minha escola.
Na aula de
E.F., todos os meus colegas de equipa aprenderam a nao me passar a bola (devido
a ser trapalhona e a acertar com a bola nos outros) e a colocarem-se
rapidamente à minha frente caso a equipa adversaria quisesse tirar proveito da
minha fraqueza. Eu, de bom agrado também, nao me punha no caminho deles.
Nesse mesmo
dia 'ele' nao voltou à escola.
Todos os dias,
eu ficava ansiosamente atenta ate os restantes Fernandes entrarem na cantina
sem 'ele'. Entao aí, eu podia sossegar e participar na conversa que se desenvolvia
à hora do almoço.
Era uma viagem
a um Parque Marítimo que seria dentro de 2 semanas que o meu amigo Mike estava
a organizar. Fui concidadã e aceitei ir, mais por delicadeza do que por vontade
para ser sincera. Suponho que as praias deviam ser quentes e secas, algo que eu
gostava bastante.
Quando chegou
a 6ª feira, eu própria ja me sentia bastante à vontade ao entrar na aula de
Biologia, estando preocupada com a presença 'dele'. Pelo que ouvi 'ele' tinha
desistido da escola e tentei nao pensar muito 'nele', mas como é obvio nao
consegui eliminar de uma so vez a preocupação devido a eu ser a responsável da
sua ausência prolongada, por mais ridículo que fosse para alguém.
O meu 1º fim
de semana com o meu pai decorreu sem incidentes. O meu pai. nao estando
habituado a passar o tempo na casa anteriormente vazia, trabalhou maior parte
do fim de semana. Eu procedi à limpeza da casa, adiantei os meus trabalhos de
casa e escrevi mais mensagens falsamente animadas pelo correio electrónico à
minha mãe. No sábado dirigi-me à biblioteca, mas esta estava mal fornecida, o
que nao me dei ao trabalho de obter um cartão; em breve teria de marcar um dia
para ir a Olympia ou a Seattle e lá encontrar uma boa biblioteca.