quarta-feira, 30 de julho de 2014

1º capítulo

A paisagem era, evidentemente, bela; eu nao podia negá-lo. Tudo era verde: as arvores, os troncos revestidos de musgo, os ramos em forma de abobada, o solo coberto de fetos. O próprio ar, filtrado pelas folhas, assumia ima tonalidade verde.
Apressei-me a desviar o olhar, enrubescendo novamente.
Também este nunca relaxou.
Permaneci imóvel no meu lugar, lançando um olhar vazio na direcção em que ele seguira.
Comecei a recolher os meus pertences lentamente, tentando refrear a raiva que me invadia, com receio de que os meus olhos se enchessem de lagrimas.
Por algum motivo, havia uma ligação estabelecida entre o meu temperamento e os meus canais lacrimais.
Levantei o olhar e deparei com um rapaz giro com cara de bébé, cabelo louro-claro cuidadosamente moldado com gel, alinhadamente espetado, que me sorria de um modo amistoso.
Vivera na Califórnia ate aos 10 anos e, por conseguinte, queria saber o que eu pensava do sol.
Foi a pessoa mais simpática que conheci neste dia.
Sorri-lhe antes de passar pela porta do balneário feminino. Ele era amável e um manifesto admirador meu, mas tal nao era suficiente para atenuar a minha irritação.
A chuva afastara-se, mas o vento estava forte e maua frio. Apertei os braços em torno do meu corpo.
Quando entrei no gabinete aconchegadamente, quase dei meia volta e saí pelo mesmo caminho.
Voltei a reconhecer aquele desgrenhado cabelo cor de bronze. Nao pareceu aperceber-se da minha entrada. Fiquei de pé, encostada à parede do fundo, esperando que a recepcionista pudesse atender-me.
Ele discutia com ela num tom de voz grave e sedutor. Depressa compreendi o cerne da questão.
A expressão estampada no seu rosto deveria ser motivada por uma exasperação completamente distinta. Nao era possível que aquele desconhecido tivesse sentido uma antipatia tão intensa e repentina por mim.
A porta abriu-se de novo e o vento frio irrompeu subitamente pela sala, soprando os documentos que se encontravam sobre a secretaria e fazendo com que os meus cabelos redemoinhassem à volta do meu rosto.               
A rapariga que entrou limitou-se a dirigir-se à secretaria, colocar um bilhete no cesto de arame e sair, mas as costas dele ficaram rígidas e virou-se lentamente para me fitar - o seu rosto era absurdamente formoso - com um olhar penetrante e repleto de ódio. 
Por um instante, senti um frémito de autentico medo, que fez com que os pêlos dos meus braços se eriçassem.
O olhar durou apenas um segundo, mas enregelou-me mais do que o vento gélido.
Virou-se novamente para a recepcionista.
- Entao, esqueça - disse ele apressadamente num tom de voz que parecia aveludado. - Vejo que é impossível. Muito obrigado pela sua ajuda.
Em seguida, deu meia volta sem voltar a pousar os olhos em mim e desapareceu porta fora.                                                                                                                                                                                               Aproximei-me devagarinho da secretaria, com o rosto inusitadamente branco em vez de vermelho, e entreguei o pedaço de papel assinado à recepcionista.
-Como correu o teu 1º dia, querida? - perguntou maternalmente.
-Muito bem - menti, com a voz débil.
Nao pareceu ficar convencida.
Quando entrei no carro, que era praticamente a ultima viatura que se encontrava no parque de estacionamento. Parecia um refugio, sendo ja o que eu tinha de mais semelhante a um lar naquele buraco verde e ultimo. Permaneci sentada no seu interior durante alguns momentos, lançando apenas o olhar vazio pelo pára-brisas, mas depressa tive frio suficiente para necessitar do aquecimento, pelo que liguei a ignição e o motor roncou ao entrar em funcionamento.
O dia seguinte foi melhor ... e pior.
Foi melhor porque ainda nao chovia, embora as nuvens fossem densas e opacas. Foi mais fácil, pois eu sabia o que esperar no meu dia. Mike sentou-se a meu lado na aula de Inglês e acompanhou-me ate à sala da aula seguinte, sob o constante olhar feroz de Eric, do clube de Xadrez, o que era lisonjeados. Ao almoço, sentei-me a uma mesa com um grande grupo, que incluía Mike, Erica, Jéssica e varias outras pessoas de cujos nomes e caras agora me recordava. Comecei a ter a sensação de que caminhava sobre agua; em vez de me afogar nela.
pior porque estava cansada; ainda nao conseguia dormir com o vento a assobiar em torno da casa. Foi pior péssimo porque tive de jogar voleibol e, da única vez que nao me afastei da trajectória da bola, atingi a minha colega de equipa na cabeça. Foi, por fim, pior porque "ele" nao apareceu na escola.
Fiz com que o leão cobarde parecesse o exterminador.              
No entanto, quando entrei na cantina com Jéssica - tentando evitar que os meus olhos esquadrinhassem o local em busca "dele" e fracassando redondamente -, vi que os seus 4 irmãos de aparência diversa estavam sentados à mesma mesa e "ele" nao se encontrava lá.
Mike interceptou-nos e conduziu-nos ate à sua mesa. Jéssica parecia enlevada por aquela atenção e os seus amigos depressa se juntaram a nós. Porém, enquanto tentava escutar a sua trivial tagarelice, sentia-me terrivelmente pouco à vontade, aguardando nervosa com o momento da sua chegada. Esperava que ele simplesmente me ignorasse quando aparecesse e demonstrasse que a minha suspeita era falsa.
Caminhei ate à aula de Biologia de uma forma mais confiante depois de, ate ao final do almoço, ele ainda nao ter aparecido. Sustive a respiração ao chegar à porta, mas "ele" também nao estava presente. Respirei fundo e dirigi-me ao meu lugar.
Permaneceu junto da minha bancada ate ao toque da campainha.
Então, sorriu-me melancolicamente e foi sentar-se junto de uma rapariga com aparelho dentário e uma permanente mal conseguida.  
Numa cidade como esta, onde todos controlavam todos, a diplomacia era essencial. Eu nunca tivera grande tacto; nao tinha qualquer tipo de pratica em lidar com rapazes excessivamente amáveis.
Disse isto a mim mesma repetidas vezes, mas nao conseguia livrar-me da incomoda suspeita de que era eu o motivo da sua ausência. Era ridículo e egoísta pensar que eu podia afectar alguém de maneira tão intensa. Era impossível, mas, mesmo assim, nao conseguia deixar de me preocupar com a possibilidade de tal corresponder à verdade.
Quando o dia de aulas finalmente terminou e o rubor provocado pelo incidente no jogo de voleibol começava a desvanecer-se das minhas faces, voltei rapidamente a vestir as minhas calças de ganga e a camisola azul-marinho. Apressei-me a sair do balneário feminino, satisfeita por constatar que, por enquanto, me esquivara com êxito do meu amigo "retriever". Encaminhei-me entao para o parque de estacionamento, agora apinhado de alunos que partiam. Entrei no meu carro e remexi no interior da minha mala a certificar-me de que tinha tudo aquilo de que necessitava.             
Na noite anterior, descobrira que o meu pai nao sabia cozinhar muito mais do que ovos estrelados e toucinho fumado, devido a isso pedi-lhe que me fossem confiadas as tarefas da cozinha. Morto para isso estava ele. Cheguei à conclusão de que ele nao tinha comida em casa, dessa forma, com a lista de compras e o dinheiro do frasco que era guardado no lava-louça e que se podia ler no rotulo "dinheiro para comida", dirigi-me para o Thriftway.
Liguei o ensurdecedor motor do meu carro e recuei cuidadosamente, ocupando um lugar na fila de carros que esperavam para sair do parque de estacionamento. Enquanto esperava vi os dois Fernandes e os gémeos Costa entrarem no seu carro. Tratava-se de um Volvo reluzente. Ainda nao tinha reparado nas suas roupas, pois fiquei demasiado hipnotizada com os seus rostos - tornava-se obvio que todos estavam excepcionalmente bem vestidos; de modo simples, mas com roupas que denotavam subtilmente origens de marca.           
Parecia excessivo o facto de eles terem boa aparência e, ao mesmo tempo, dinheiro, mas, tanto quanto me é possível observar, a vida funciona desta forma na maior parte das vezes. Nao parecia, porém, proporcionar-lhes a aceitação naquele lugar.
Nao, eu nao estava a acreditar inteiramente nisto. Deviam ser eles que desejavam viver isolados; nao conseguia imaginar nenhuma porta que nao fosse aberta por aquele grau de beleza.
Olharam para o meu carro quando passei por eles, tal e qual como as outras pessoas.
O Thriftway nao ficava muito longe da escola; situava-se a algumas ruas de distancia, para Sul, à saída da estrada nacional.
Em casa, eu é que me encarregava das compras e dediquem-me de boa vontade à tarefa com que ja estava familiarizada. O interior da casa era suficientemente grande para que eu nao conseguisse ouvir a chuva a bater no telhado e nao fosse relembrada do local onde me encontrava.
Assim que cheguei a casa, descarreguei as compras que tinha feito dos sacos, guardando-as onde encontrasse espaço livre. Achei que o meu pai nao se iria importar com isso. Envolvi as batatas em papel de alumínio e coloquei-as no forno para que assassem, mergulhei um bife na marinada e equilibrei-o em cima de uma enbalagem de ovos no frigorifico.
Logo que conclui essa tarefa, levei a minha pasta com livros para cima. Antes de ir fazer is trabalhos de casa fui vestir umas calças de fato de treino, apanhei o meu cabelo húmido num rabo-de-cavalo e fui ver o meu correio eletrônico. Tinha três mensagens, todas da minha mãe.
Ela estava preocupada por nao lhe responder e na ultima disse que se nao lhe respondesse ate às 17:30h do dia de hoje, telefonaria ao meu pai. Para grande sorte minha ainda tinha 1h mas, como sempre, a minha mãe antecipava-se sempre antes. Entao enviei-lhe a seguinte mensagem: 'Mae, acalma-te. Estou a escrever-te agora. Nao tomes nenhuma atitude precipitada pff.' Logo de seguida continuei a escrever: 'Está tudo bem. É claro que o tempo aqui está mau, estava apenas a arranjar tema para te escrever. Conheci e fiz amigos lá na escola nos quais se sentam comigo ao almoço. A tua blusa está na lavandaria e ja a devias ter ido buscar na 6ª feira. O pai comprou-me um carro, acreditas? Adoro o carro. Também sinto imensas saudades tuas. Escrevo-te em breve mas nao vou ver o meu correio eletrônico de 5 em 5min. Descansa e respira. Gosto muito de ti.' E enviei essa mensagem, saí do correio eletrônico e dediquei-me aos trabalhos de casa.
Decidi entao ler 'O Monte dos Vendavais' - que era o romance que estávamos a estudar, de momento, na disciplina de Inglês - e era isso que estava a fazer quando o meu pai chegou a casa. Tonha perdido a noção do tempo e precipitei-me para o andar de baixo com o fim de retirar as batatas e colocar o bife a grelhar.
-Filha?
-Olá pai, bem vindo a casa.
-Obrigado.
O que vai ser o jantar? - perguntou-me de uma forma cautelosa.
A minha mãe era uma cozinheira imaginativa e nem sempre as suas experiências eram combustíveis. Fiquei surpreendida, mas também triste, por ele parecer guardar lembranças tão antigas.     
-Bife com batatas – respondi.
Pareceu ficar aliviado.
Dava-me a impressão de estar constrangido ao ficar na cozinho sem fazer nada; arrastou-se pesadamente ate à sala de estar para ir ver televisão enquanto eu preparava o jantar. Nós os dois sentíamo-nos mais à vontade desta forma. Preparei também uma salada enquanto esperava que os bifes cozinhassem e pus a mesa.
Assim que estava tudo pronto chamei-o e ele sentiu o cheiro da comida de forma apreciadora quando entrou na cozinha.              
-Cheira bem, filha.
-Obrigada.
Comemos em silencio durante alguns minutos, o que nao era, de modo nenhum, constrangedor. Nenhum de nós se incomodava com o silencio. Ate que ele quebrou o silencio e disse:
-Entao, que tal te parece a escola? Fizeste algumas amizades? - perguntou-me ele enquanto se servia pela 2 vez.
-Bem, tenho algumas aulas com uma rapariga chamada Jéssica. Sento-me na companhia dos amigos dela à hora do almoço. Também ha um rapaz, o Mike, que é bastante amável. Todos são muito simpáticos. Com uma excepção de relevo.
-Ja agora pai, conheces a família Fernandes? - perguntei-lhe de um modo hesitante.
 -A família do Dr. Fernandes? Claro que sim, o Dr. Fernandes é um grande homem.
-Eles, os filhos, são um pouco diferentes. Nao parecem integrarem-se muito bem lá na escola.
Quando afirmei isso ao meu pai, ele surpreendeu-me ao parecer ficar zangado com tal facto dito por mim.
-Pessoas desta cidade - resmungou. - O Dr. Fernandes é um cirurgião excelente que poderia, possivelmente, trabalhar em qualquer hospital do mundo e ganhar dez vezes mais o salário que ganha aqui - ele continuou, aumentando a tom de voz. - Temos muita sorte em tê-lo aqui, por a sua mulher ter querido viver numa cidade pequena. Ele é uma mais-valia para a comunidade e todos os miúdos são educados e bem-comportados. - deteve-se por um instante.
-Quando eles se mudaram para ca, eu próprio tive as minhas duvidas acerca de todos esses adolescentes. Pensei que me trouxessem problemas mas são todos muito maduros. Nenhum deles me causou o mínimo incomodo. Mas so por serem tecem-chegados, as pessoas têm que bisbilhotar.
Foi o discurso mais longo que alguma vez ouvi do meu pai.
Retrocedi.
-A mim, parecem-me bastante simpáticos.
-Entao devias conhecer o medico. - afirmou o meu pai, rindo-se. - Felizmente ele tem um casamento feliz. Muitas enfermeiras têm dificuldade em concentrarem-se no trabalho quando ele está por perto.
Quando acabamos de comer ele levantou a mesa enquanto eu começava a tratar da louça. Logo que acabei de lavar a louça dirigi-me de má vontade ao meu quarto para realizar os meus trabalhos de casa de Matemática.
Por fim, tive finalmente uma noite calma. Acabei por adormecer depressa porque me sentia exausta.
Ao longo do resto da semana, nao ocorreram grandes acontecimentos. Quando chegou a 6ª feira, eu ja conhecia reconhecer, se nao mesmo chamar pelo nome, quase todos os alunos da minha escola.
Na aula de E.F., todos os meus colegas de equipa aprenderam a nao me passar a bola (devido a ser trapalhona e a acertar com a bola nos outros) e a colocarem-se rapidamente à minha frente caso a equipa adversaria quisesse tirar proveito da minha fraqueza. Eu, de bom agrado também, nao me punha no caminho deles.
Nesse mesmo dia 'ele' nao voltou à escola.
Todos os dias, eu ficava ansiosamente atenta ate os restantes Fernandes entrarem na cantina sem 'ele'. Entao aí, eu podia sossegar e participar na conversa que se desenvolvia à hora do almoço.
Era uma viagem a um Parque Marítimo que seria dentro de 2 semanas que o meu amigo Mike estava a organizar. Fui concidadã e aceitei ir, mais por delicadeza do que por vontade para ser sincera. Suponho que as praias deviam ser quentes e secas, algo que eu gostava bastante.
Quando chegou a 6ª feira, eu própria ja me sentia bastante à vontade ao entrar na aula de Biologia, estando preocupada com a presença 'dele'. Pelo que ouvi 'ele' tinha desistido da escola e tentei nao pensar muito 'nele', mas como é obvio nao consegui eliminar de uma so vez a preocupação devido a eu ser a responsável da sua ausência prolongada, por mais ridículo que fosse para alguém.    
O meu 1º fim de semana com o meu pai decorreu sem incidentes. O meu pai. nao estando habituado a passar o tempo na casa anteriormente vazia, trabalhou maior parte do fim de semana. Eu procedi à limpeza da casa, adiantei os meus trabalhos de casa e escrevi mais mensagens falsamente animadas pelo correio electrónico à minha mãe. No sábado dirigi-me à biblioteca, mas esta estava mal fornecida, o que nao me dei ao trabalho de obter um cartão; em breve teria de marcar um dia para ir a Olympia ou a Seattle e lá encontrar uma boa biblioteca.