Pela manha,
quando abri os meus olhos, notei que havia algo de diferente.
Era a
claridade. Podia-se caracterizar pela tonalidade verde-acinzentada de 1 dia
nublado na floresta, mas, estava luminosa. Notei também que nao havia nevoeiro
à frente da minha janela.
Uma fina
camada de neve cobria o jardim e embranquecia a estrada. Toda a chuva que tinha
caído no dia anterior tinha gelado e solidificai - revestindo as aguas das
arvores de configurações deslumbrantes e fantásticas, fazendo da estrada uma
mortífera superfície gelada. Eu ja tinha alguma dificuldade em manter-me de pé
quando o piso estava seco; talvez, o mais seguro para mim fosse voltar para a
cama e deitar-me.
O meu pai ja
tinha saído de casa para ir trabalhar antes de eu descer. Em alguns aspectos, o
facto de eu viver com o meu pai equivalia a ter a minha própria casa e dei por
a deliciar-me com a solidão em vez de me sentir só
Tomei
rapidamente uma taça de cereais Chocapic e um pouco de sumo de laranja
directamente do pacote.
Estava a
sentir-me animada por ir para a escola e isso assustou-me. Para ser honesta
comigo mesmo, eu sabia do motivo, eu tinha a plena consciência de que estava
impaciente por ir para a escola, nao para estar e ver os meus amigos mas sim
para vê-lo, ao Rafael Fernandes, o que era uma grande estupidez.
Eu devia estar
a tentar evita-lo por completo depois da minha insensata e embaraçosa
verborreia no dia anterior. Além disso, ainda tinha as minhas desconfianças em
relação a ele; Eu estava ainda assustada com a hostilidade que, por vezes,
sentia emanar dele e que ficava ainda sem palavras sempre que via a sua cara
mais que perfeita. Sabia muito bem de que o meu mundo e o dele eram pólos que
nao se tocavam. Por isso, nao havia razão de eu estar ansiosa por vê-lo neste
dia.
Foi necessária
toda a minha concentração para conseguir percorrer a glacial entrada de tijolo
e chegar ao final com vida.
Quase que
perdi o meu equilíbrio quando cheguei finalmente ao pé do meu carro, mas
felizmente consegui segurar-me ao espelho retrovisor lateral e manter-me a
salvo. Este dia seria, de facto, um pesadelo para mim.
Ao conduzir
ate à escola, o meu receio de cair e as minhas indesejadas especulações em ao
Rafael Fernandes afastaram-se do meu espirito quando pensei no Mike, no Eric e
na obvia diferença da forma como os rapazes adolescentes reagiram à minha
pessoa nesta cidade. Qualquer que fosse a razão, o comportamento típico de 1
cachorrinho que o Mike assumia e a aparente rivalidade que existia entre ele e
o Eric eram-me desconcertantes. Na verdade, nao sabia ao certo se o melhor era
ser ignorada.
Quando saí do
neh carro, ja na escola, vi o motivo por que tive escassas dificuldades. Algo
prateado chamou a minha atenção e fui ate à parte traseira do meu carro.
Vi varias
coisas em simultâneo, o Rafael Fernandes encontrava-se a 4 carros de distancia
de mim. No entanto, o factor de importância mais imediata era a carrinha
azul-escura que se derrapara, com os pneus bloqueados e a chiarem devido ao
efeito dos travões. Ia embater com o meu carro e eu estava no permeio. Nem tive
tempo sequer para fechar os meus olhos.
Mesmo antes de
eu ouvir o esmagador estrepito da carrinha a embater no meu carro algo me
atingiu com violência, mas nao da direcção que eu estava à espera. A minha
cabeça bateu no gelado alcatrão e senti algo solido e frio a prender-me contra
o chão.
Vi-o. Era ele,
o rapaz que me salvou a vida, o meu salvador, o Rafael Fernandes. Conseguia-o
ouvir bastante bem quando ele falou comigo ao meu ouvido.
-Adriana?
Estas bem?
-Sim, estou
óptima.
A minha voz
parecia-me estranha.
-Tem cuidado -
disse-me ele enquanto eu me debatia. - Acho que bateste com a cabeça com muita
força.
Apercebi-me da
dor latejante localizada acima da minha orelha esquerda.
-Au! -
exclamei, surpreendida
-Bem me
pareceu.
-Que diabos...
- as minhas palavras foram perdendo a intensidade. - Como é que chegaste aqui
tão depressa?
-Eu estava
mesmo ao teu lado Adriana. - disse-me ele com um tom de voz serio.
Entao, houve
uma grande concentração de pessoas com lagrimas a escorrem pelas suas caras,
gritando umas com as outras para nos acudirem.
-Nao se mexam!
- recomendou alguém
-Tirem o Tyler
da carrinha - disse outra.
Tentei
levantar-me nesse instante mas a mão fria do Rafael empurrou-me para baixo.
-Fica quieta
por agora
-Mas está
frio. - queixei-me.
Fiquei
surpreendida quando ele soltou um sorriso abafado.
-Tu estavas
tão longe - relembrei-me de repente - Estavas ao pé do teu carro
-Nao, nao
estava
-Eu vi-te.
Eu tinha razão
no que dizia e ele haveria de o reconhecer.
-Adriana, eu
estava aqui contigo e puxei-te para te afastar.
-Nao - afirmei
-Por favor,
Adriana
-Porquê?
-Confia em mim
- suplicou-me.
Ja conseguia
ouvir as sirenes.
-Promestes
explicar-me tudo mais tarde?
-Okay -
disse-me de um modo incisivo, bruscamente exasperado
-Okay - repeti
agastada
So para a
minha situação piorar, o chefe Martins, o meu pai, chegou antes que me pudessem
ter levado dali em segurança.
-Adriana! -
gritou num tom de pânico quando viu que era eu que estava estendida na maca.
-Estou
absolutamente bem, ... pai - disse-lhe suspirando - Nao ha nada de errado
comigo.
Quando
finalmente me levantaram, afastando-me do automóvel, vi a grande mossa que
coincidia com os contornos dos ombros do Rafael Fernandes.
Para além
disso, encontrava-se presente ali a sua família com expressões que se
alternavam entre reprovação e fúria. Mas nao mostraram qualquer tipo de
preocupação relativamente à segurança do seu próprio irmão.
Quando ja
estava dentro da ambulância, com o Tyler, este fitava-me com um ar ansioso.
-Adriana,
desculpa a serio.
-Eu estou bem
Tyler, tu é que nao pareces lá muito bem. Sentes-te bem?
Enquanto
falávamos as enfermeiras desenrolavam as suas ligaduras manchadas e cobertas de
sangue.
Ele
ignorou-me.
-Cheguei mesmo
a pensar que te ia matar.
-Nao te
preocupes com isso; nao me atingiste.
-Como é que
conseguiste escapar tão depressa? Por um momento estavas ali e no outro ja
nao...
-Hm... o
Rafael ajudou-me a afasta-me.
Pareceu ficar
confuso nesse momento
-Quem?
-O Rafael
Fernandes, ele estava ao pé de mim.
-O Fernandes?
Nao o vi... parece que tudo aconteceu suficientemente depressa. Ele está bem?
-Acho que sim,
mas nao obrigaram a deitar-se numa maca.
Eu sabia que
nao estava doida. O que tinha acontecido?
Passado algum
tempo acabei por adormecer.
-Ela está a
dormir? - perguntou uma voz maliciosa
De repente, os
meus olhos abriram-se.
O Rafael
estava aos pés da minha cama, sorrindo. Olhei-o irritadíssima.
-Rafael,
lamento imenso o sucedido. - principiou o Tyler
-Nao havendo
sangue, nao ha problema - declarou ele, sorrindo
Entao, qual é
o veredicto? - perguntou-me
-Nao ha
absolutamente nada de errado comigo mas nao me deixam ir embora - queixei-me
-Nao te
preocupes, eu vim libertar-te
Logo de
seguida, apareceu um medico. Era bastante jovem, louro e mais bonito do que
alguma estrela de cinema que alguma vez vi. De acordo com a descrição do meu
pai, so poderia ser o pai do Rafael
-Entao, menina
Martins? - disse o Dr. Fernandes - como é que se sente?
-Estou óptima.
-As suas
radiografias parecem estar bem - disse ele - Dói-lhe a cabeça? O Rafael
comentou comigo que bateu com a cabeça com alguma violência.
-A minha
cabeça está óptima - repeti com um suspiro e logo de seguida lancei um olhar
mal-humorado ao Rafael
Os seus dedos
frios do Dr. Fernandes perscrutaram levemente a minha cabeça e reparou no meu
estremecimento.
-Está dorido?
- perguntou-me o Dr.
-Nem por isso.
Ouvi um riso
abafado e quando olhei vi o sorriso condescendente do Rafael. Semicerrei os
olhos.
-Bem, o seu
pai está na sala de espera; ja pode ir para casa com ele mas se sentir tonturas
ou algum problema volte ca.
-Nao posso
voltar à escola?
-Talvez o
melhor fosse repousar hoje
Olhei
rapidamente para o Rafael.
-E 'ele', pode
ir para a escola?
-Alguém tem
que ir espalhar a óptima noticia de que ambos sobrevivemos - disse sorrindo.
-Na verdade,
maior parte da escola está na sala de espera - afirmou o Dr. Fernandes.
-Oh nao -
lastimei-me
-Quer ficar? -
perguntou-me o Dr.
-Nao, nao!
Estou óptima - assegurei-lhe.
-Parece que
teve imensa sorte - afirmou o Dr.
-Tive a sorte
de o Rafael ter estado ao meu lado.
-Oh, bem, sim
- concordou o Dr.
-Bem, receio
que o Tyler tenha de nos fazer companhia apenas por mais uns dias - disse ele,
começando a examinar os golpes dele
Assim que o
medico virou as costas, fui ter com o Rafael.
-Podemos ir
falar por um instante? - perguntei-lhe baixinho.
Ele recuou um
passo de mim.
-O teu pai
está à espera de ti - disse ele por entre dentes.
-Mas eu
gostava de falar contigo a sós se nao te importares. - insisti.
Lançou-me um
olhar irritado.
-O que queres?
-Deves-me uma
explicação. - relembrei-o.
-Salvei-te
apenas a vida, nao te devo nada.
-Tu
prometeste-me.
-Adriana, tu
bateste com a cabeça. Nao sabes o que estas a dizer.
O seu tom de
voz era incisivo.
-Nao ha nada
de mal com a minha cabeça. - disse-lhe. - Apenas quero saber da verdade Rafael.
-O que é que
tu julgas que aconteceu?
-Nao sei, mas
lembro-me, e bastante bem, de que estavas bem longe de mim com 4 carros de
distancia. E o Tyler também nao te viu, por isso nao venhas ca dizer que bati
com demasiada força com a cabeça. Acabaste por deixar uma mossa no outro carro
e nao tens qualquer um ferimento. A carrinha ter-me-ia esmagado, mas tu estavas
a ergue-la no ar...
Parei de
falar, nao conseguindo prosseguir, ao reparar no quão disparatado que aquilo
era. Mas, embora fosse disparatado, era tudo verdade. Eu tinha-o visto a
ergue-la.
-Achas mesmo
que levantei uma carrinha de cima de ti? Ninguém ira acreditar em ti, sabes?
-Nao tenho
intenção de conta-lo a alguém.
-Entao, que
importância tem?
-Para mim tem.
- continuei a insistir - Nao gosto de mentir, por isso deve haver um bom motivo
para o estar a fazer.
-Nao podes
agradecer-me e esquecer tudo isto?
-Obrigada. -
disse secamente.
-Nao te vais
esquecer disto pois nao?
-Nao.
-Entao...
espero que gostes de sofrer desilusões.
Ficamos, por
momentos, a olhar-mo-nos um para o outro com o ar serio.
-Porquê que te
deste ao trabalho? - perguntei-lhe friamente.
-Nao sei -
sussurrou.
Depois,
virou-se de costas e afastou-se de seguida.
Eu fui ter com
o meu pai.
-O que é que o
medico disse? - perguntou o meu pai.
-O Dr.
Fernandes disse que eu estou e que devo ir para casa repousar. Vamos embora por
favor pai. - exortei.
O meu pai
envolveu-me com o braço, nao me tocando totalmente. Foi um enorme alivio para
mim quando entramos no carro radio-patrulha.
Seguimos em
silencio e nenhum de nós se atreveu a dizer qualquer coisa que fosse.
Quando
finalmente chegamos a casa é que o meu pai falou.
-Hm, filha...
tens que telefonar à mãe. - disse o meu pai, baixando a cabeça, sendo invadido
por um sentimento de culpa.
-Contaste à
mãe?!
-Desculpa.
Quando saí do
carro, bati com a porta com um pouco de violência a mais.
A minha mãe
estava imensamente e desnecessariamente preocupada e tive de lhe dizer de que
estava tudo bem para aí umas 50X. Implorou-me para que voltasse para casa. Eu
estava totalmente consumida pelo mistério que o Rafael representava e mais do
que um pouco obcecada pelo próprio Rafael. Decidi deitar-me cedo nessa noite. O
meu pai continuava a vigiar-me com demasiados cuidados e isso ja me estava a irritar
um pouco.
Nessa noite,
foi a minha 1ª noite que sonhei com o Rafael Fernandes.
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