terça-feira, 5 de agosto de 2014

3º capítulo

Pela manha, quando abri os meus olhos, notei que havia algo de diferente.
Era a claridade. Podia-se caracterizar pela tonalidade verde-acinzentada de 1 dia nublado na floresta, mas, estava luminosa. Notei também que nao havia nevoeiro à frente da minha janela.
Uma fina camada de neve cobria o jardim e embranquecia a estrada. Toda a chuva que tinha caído no dia anterior tinha gelado e solidificai - revestindo as aguas das arvores de configurações deslumbrantes e fantásticas, fazendo da estrada uma mortífera superfície gelada. Eu ja tinha alguma dificuldade em manter-me de pé quando o piso estava seco; talvez, o mais seguro para mim fosse voltar para a cama e deitar-me.
O meu pai ja tinha saído de casa para ir trabalhar antes de eu descer. Em alguns aspectos, o facto de eu viver com o meu pai equivalia a ter a minha própria casa e dei por a deliciar-me com a solidão em vez de me sentir só
Tomei rapidamente uma taça de cereais Chocapic e um pouco de sumo de laranja directamente do pacote.
Estava a sentir-me animada por ir para a escola e isso assustou-me. Para ser honesta comigo mesmo, eu sabia do motivo, eu tinha a plena consciência de que estava impaciente por ir para a escola, nao para estar e ver os meus amigos mas sim para vê-lo, ao Rafael Fernandes, o que era uma grande estupidez.
Eu devia estar a tentar evita-lo por completo depois da minha insensata e embaraçosa verborreia no dia anterior. Além disso, ainda tinha as minhas desconfianças em relação a ele; Eu estava ainda assustada com a hostilidade que, por vezes, sentia emanar dele e que ficava ainda sem palavras sempre que via a sua cara mais que perfeita. Sabia muito bem de que o meu mundo e o dele eram pólos que nao se tocavam. Por isso, nao havia razão de eu estar ansiosa por vê-lo neste dia.
Foi necessária toda a minha concentração para conseguir percorrer a glacial entrada de tijolo e chegar ao final com vida.
Quase que perdi o meu equilíbrio quando cheguei finalmente ao pé do meu carro, mas felizmente consegui segurar-me ao espelho retrovisor lateral e manter-me a salvo. Este dia seria, de facto, um pesadelo para mim.
Ao conduzir ate à escola, o meu receio de cair e as minhas indesejadas especulações em ao Rafael Fernandes afastaram-se do meu espirito quando pensei no Mike, no Eric e na obvia diferença da forma como os rapazes adolescentes reagiram à minha pessoa nesta cidade. Qualquer que fosse a razão, o comportamento típico de 1 cachorrinho que o Mike assumia e a aparente rivalidade que existia entre ele e o Eric eram-me desconcertantes. Na verdade, nao sabia ao certo se o melhor era ser ignorada.
Quando saí do neh carro, ja na escola, vi o motivo por que tive escassas dificuldades. Algo prateado chamou a minha atenção e fui ate à parte traseira do meu carro.
Vi varias coisas em simultâneo, o Rafael Fernandes encontrava-se a 4 carros de distancia de mim. No entanto, o factor de importância mais imediata era a carrinha azul-escura que se derrapara, com os pneus bloqueados e a chiarem devido ao efeito dos travões. Ia embater com o meu carro e eu estava no permeio. Nem tive tempo sequer para fechar os meus olhos.
Mesmo antes de eu ouvir o esmagador estrepito da carrinha a embater no meu carro algo me atingiu com violência, mas nao da direcção que eu estava à espera. A minha cabeça bateu no gelado alcatrão e senti algo solido e frio a prender-me contra o chão.
Vi-o. Era ele, o rapaz que me salvou a vida, o meu salvador, o Rafael Fernandes. Conseguia-o ouvir bastante bem quando ele falou comigo ao meu ouvido.
-Adriana? Estas bem?
-Sim, estou óptima.
A minha voz parecia-me estranha.
-Tem cuidado - disse-me ele enquanto eu me debatia. - Acho que bateste com a cabeça com muita força.
Apercebi-me da dor latejante localizada acima da minha orelha esquerda.
-Au! - exclamei, surpreendida
-Bem me pareceu.
-Que diabos... - as minhas palavras foram perdendo a intensidade. - Como é que chegaste aqui tão depressa?
-Eu estava mesmo ao teu lado Adriana. - disse-me ele com um tom de voz serio.
Entao, houve uma grande concentração de pessoas com lagrimas a escorrem pelas suas caras, gritando umas com as outras para nos acudirem.
-Nao se mexam! - recomendou alguém
-Tirem o Tyler da carrinha - disse outra.
Tentei levantar-me nesse instante mas a mão fria do Rafael empurrou-me para baixo.
-Fica quieta por agora
-Mas está frio. - queixei-me.
Fiquei surpreendida quando ele soltou um sorriso abafado.
-Tu estavas tão longe - relembrei-me de repente - Estavas ao pé do teu carro
-Nao, nao estava
-Eu vi-te.
Eu tinha razão no que dizia e ele haveria de o reconhecer.
-Adriana, eu estava aqui contigo e puxei-te para te afastar.
-Nao - afirmei
-Por favor, Adriana
-Porquê?
-Confia em mim - suplicou-me.
Ja conseguia ouvir as sirenes.
-Promestes explicar-me tudo mais tarde?
-Okay - disse-me de um modo incisivo, bruscamente exasperado
-Okay - repeti agastada
So para a minha situação piorar, o chefe Martins, o meu pai, chegou antes que me pudessem ter levado dali em segurança.
-Adriana! - gritou num tom de pânico quando viu que era eu que estava estendida na maca.
-Estou absolutamente bem, ... pai - disse-lhe suspirando - Nao ha nada de errado comigo.
Quando finalmente me levantaram, afastando-me do automóvel, vi a grande mossa que coincidia com os contornos dos ombros do Rafael Fernandes.
Para além disso, encontrava-se presente ali a sua família com expressões que se alternavam entre reprovação e fúria. Mas nao mostraram qualquer tipo de preocupação relativamente à segurança do seu próprio irmão.
Quando ja estava dentro da ambulância, com o Tyler, este fitava-me com um ar ansioso.
-Adriana, desculpa a serio.
-Eu estou bem Tyler, tu é que nao pareces lá muito bem. Sentes-te bem?
Enquanto falávamos as enfermeiras desenrolavam as suas ligaduras manchadas e cobertas de sangue.
Ele ignorou-me.
-Cheguei mesmo a pensar que te ia matar.
-Nao te preocupes com isso; nao me atingiste.
-Como é que conseguiste escapar tão depressa? Por um momento estavas ali e no outro ja nao...
-Hm... o Rafael ajudou-me a afasta-me.
Pareceu ficar confuso nesse momento
-Quem?
-O Rafael Fernandes, ele estava ao pé de mim.
-O Fernandes? Nao o vi... parece que tudo aconteceu suficientemente depressa. Ele está bem?
-Acho que sim, mas nao obrigaram a deitar-se numa maca.
Eu sabia que nao estava doida. O que tinha acontecido?
Passado algum tempo acabei por adormecer.
-Ela está a dormir? - perguntou uma voz maliciosa
De repente, os meus olhos abriram-se.
O Rafael estava aos pés da minha cama, sorrindo. Olhei-o irritadíssima.
-Rafael, lamento imenso o sucedido. - principiou o Tyler
-Nao havendo sangue, nao ha problema - declarou ele, sorrindo
Entao, qual é o veredicto? - perguntou-me
-Nao ha absolutamente nada de errado comigo mas nao me deixam ir embora - queixei-me
-Nao te preocupes, eu vim libertar-te
Logo de seguida, apareceu um medico. Era bastante jovem, louro e mais bonito do que alguma estrela de cinema que alguma vez vi. De acordo com a descrição do meu pai, so poderia ser o pai do Rafael
-Entao, menina Martins? - disse o Dr. Fernandes - como é que se sente?
-Estou óptima.
-As suas radiografias parecem estar bem - disse ele - Dói-lhe a cabeça? O Rafael comentou comigo que bateu com a cabeça com alguma violência.
-A minha cabeça está óptima - repeti com um suspiro e logo de seguida lancei um olhar mal-humorado ao Rafael
Os seus dedos frios do Dr. Fernandes perscrutaram levemente a minha cabeça e reparou no meu estremecimento.
-Está dorido? - perguntou-me o Dr.
-Nem por isso.
Ouvi um riso abafado e quando olhei vi o sorriso condescendente do Rafael. Semicerrei os olhos.
-Bem, o seu pai está na sala de espera; ja pode ir para casa com ele mas se sentir tonturas ou algum problema volte ca.
-Nao posso voltar à escola?
-Talvez o melhor fosse repousar hoje
Olhei rapidamente para o Rafael.
-E 'ele', pode ir para a escola?
-Alguém tem que ir espalhar a óptima noticia de que ambos sobrevivemos - disse sorrindo.
-Na verdade, maior parte da escola está na sala de espera - afirmou o Dr. Fernandes.
-Oh nao - lastimei-me
-Quer ficar? - perguntou-me o Dr.
-Nao, nao! Estou óptima - assegurei-lhe.
-Parece que teve imensa sorte - afirmou o Dr.
-Tive a sorte de o Rafael ter estado ao meu lado.
-Oh, bem, sim - concordou o Dr.
-Bem, receio que o Tyler tenha de nos fazer companhia apenas por mais uns dias - disse ele, começando a examinar os golpes dele
Assim que o medico virou as costas, fui ter com o Rafael.
-Podemos ir falar por um instante? - perguntei-lhe baixinho.
Ele recuou um passo de mim.
-O teu pai está à espera de ti - disse ele por entre dentes.
-Mas eu gostava de falar contigo a sós se nao te importares. - insisti.
Lançou-me um olhar irritado.
-O que queres?
-Deves-me uma explicação. - relembrei-o.
-Salvei-te apenas a vida, nao te devo nada.
-Tu prometeste-me.
-Adriana, tu bateste com a cabeça. Nao sabes o que estas a dizer.
O seu tom de voz era incisivo.
-Nao ha nada de mal com a minha cabeça. - disse-lhe. - Apenas quero saber da verdade Rafael.
-O que é que tu julgas que aconteceu?
-Nao sei, mas lembro-me, e bastante bem, de que estavas bem longe de mim com 4 carros de distancia. E o Tyler também nao te viu, por isso nao venhas ca dizer que bati com demasiada força com a cabeça. Acabaste por deixar uma mossa no outro carro e nao tens qualquer um ferimento. A carrinha ter-me-ia esmagado, mas tu estavas a ergue-la no ar...
Parei de falar, nao conseguindo prosseguir, ao reparar no quão disparatado que aquilo era. Mas, embora fosse disparatado, era tudo verdade. Eu tinha-o visto a ergue-la.
-Achas mesmo que levantei uma carrinha de cima de ti? Ninguém ira acreditar em ti, sabes?
-Nao tenho intenção de conta-lo a alguém.
-Entao, que importância tem?
-Para mim tem. - continuei a insistir - Nao gosto de mentir, por isso deve haver um bom motivo para o estar a fazer.
-Nao podes agradecer-me e esquecer tudo isto?
-Obrigada. - disse secamente.
-Nao te vais esquecer disto pois nao?
-Nao.
-Entao... espero que gostes de sofrer desilusões.
Ficamos, por momentos, a olhar-mo-nos um para o outro com o ar serio.
-Porquê que te deste ao trabalho? - perguntei-lhe friamente.
-Nao sei - sussurrou.
Depois, virou-se de costas e afastou-se de seguida.
Eu fui ter com o meu pai.
-O que é que o medico disse? - perguntou o meu pai.
-O Dr. Fernandes disse que eu estou e que devo ir para casa repousar. Vamos embora por favor pai. - exortei.
O meu pai envolveu-me com o braço, nao me tocando totalmente. Foi um enorme alivio para mim quando entramos no carro radio-patrulha.
Seguimos em silencio e nenhum de nós se atreveu a dizer qualquer coisa que fosse.
Quando finalmente chegamos a casa é que o meu pai falou.
-Hm, filha... tens que telefonar à mãe. - disse o meu pai, baixando a cabeça, sendo invadido por um sentimento de culpa.
-Contaste à mãe?!
-Desculpa.
Quando saí do carro, bati com a porta com um pouco de violência a mais.
A minha mãe estava imensamente e desnecessariamente preocupada e tive de lhe dizer de que estava tudo bem para aí umas 50X. Implorou-me para que voltasse para casa. Eu estava totalmente consumida pelo mistério que o Rafael representava e mais do que um pouco obcecada pelo próprio Rafael. Decidi deitar-me cedo nessa noite. O meu pai continuava a vigiar-me com demasiados cuidados e isso ja me estava a irritar um pouco.

Nessa noite, foi a minha 1ª noite que sonhei com o Rafael Fernandes.

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