terça-feira, 5 de agosto de 2014

3º capítulo

Pela manha, quando abri os meus olhos, notei que havia algo de diferente.
Era a claridade. Podia-se caracterizar pela tonalidade verde-acinzentada de 1 dia nublado na floresta, mas, estava luminosa. Notei também que nao havia nevoeiro à frente da minha janela.
Uma fina camada de neve cobria o jardim e embranquecia a estrada. Toda a chuva que tinha caído no dia anterior tinha gelado e solidificai - revestindo as aguas das arvores de configurações deslumbrantes e fantásticas, fazendo da estrada uma mortífera superfície gelada. Eu ja tinha alguma dificuldade em manter-me de pé quando o piso estava seco; talvez, o mais seguro para mim fosse voltar para a cama e deitar-me.
O meu pai ja tinha saído de casa para ir trabalhar antes de eu descer. Em alguns aspectos, o facto de eu viver com o meu pai equivalia a ter a minha própria casa e dei por a deliciar-me com a solidão em vez de me sentir só
Tomei rapidamente uma taça de cereais Chocapic e um pouco de sumo de laranja directamente do pacote.
Estava a sentir-me animada por ir para a escola e isso assustou-me. Para ser honesta comigo mesmo, eu sabia do motivo, eu tinha a plena consciência de que estava impaciente por ir para a escola, nao para estar e ver os meus amigos mas sim para vê-lo, ao Rafael Fernandes, o que era uma grande estupidez.
Eu devia estar a tentar evita-lo por completo depois da minha insensata e embaraçosa verborreia no dia anterior. Além disso, ainda tinha as minhas desconfianças em relação a ele; Eu estava ainda assustada com a hostilidade que, por vezes, sentia emanar dele e que ficava ainda sem palavras sempre que via a sua cara mais que perfeita. Sabia muito bem de que o meu mundo e o dele eram pólos que nao se tocavam. Por isso, nao havia razão de eu estar ansiosa por vê-lo neste dia.
Foi necessária toda a minha concentração para conseguir percorrer a glacial entrada de tijolo e chegar ao final com vida.
Quase que perdi o meu equilíbrio quando cheguei finalmente ao pé do meu carro, mas felizmente consegui segurar-me ao espelho retrovisor lateral e manter-me a salvo. Este dia seria, de facto, um pesadelo para mim.
Ao conduzir ate à escola, o meu receio de cair e as minhas indesejadas especulações em ao Rafael Fernandes afastaram-se do meu espirito quando pensei no Mike, no Eric e na obvia diferença da forma como os rapazes adolescentes reagiram à minha pessoa nesta cidade. Qualquer que fosse a razão, o comportamento típico de 1 cachorrinho que o Mike assumia e a aparente rivalidade que existia entre ele e o Eric eram-me desconcertantes. Na verdade, nao sabia ao certo se o melhor era ser ignorada.
Quando saí do neh carro, ja na escola, vi o motivo por que tive escassas dificuldades. Algo prateado chamou a minha atenção e fui ate à parte traseira do meu carro.
Vi varias coisas em simultâneo, o Rafael Fernandes encontrava-se a 4 carros de distancia de mim. No entanto, o factor de importância mais imediata era a carrinha azul-escura que se derrapara, com os pneus bloqueados e a chiarem devido ao efeito dos travões. Ia embater com o meu carro e eu estava no permeio. Nem tive tempo sequer para fechar os meus olhos.
Mesmo antes de eu ouvir o esmagador estrepito da carrinha a embater no meu carro algo me atingiu com violência, mas nao da direcção que eu estava à espera. A minha cabeça bateu no gelado alcatrão e senti algo solido e frio a prender-me contra o chão.
Vi-o. Era ele, o rapaz que me salvou a vida, o meu salvador, o Rafael Fernandes. Conseguia-o ouvir bastante bem quando ele falou comigo ao meu ouvido.
-Adriana? Estas bem?
-Sim, estou óptima.
A minha voz parecia-me estranha.
-Tem cuidado - disse-me ele enquanto eu me debatia. - Acho que bateste com a cabeça com muita força.
Apercebi-me da dor latejante localizada acima da minha orelha esquerda.
-Au! - exclamei, surpreendida
-Bem me pareceu.
-Que diabos... - as minhas palavras foram perdendo a intensidade. - Como é que chegaste aqui tão depressa?
-Eu estava mesmo ao teu lado Adriana. - disse-me ele com um tom de voz serio.
Entao, houve uma grande concentração de pessoas com lagrimas a escorrem pelas suas caras, gritando umas com as outras para nos acudirem.
-Nao se mexam! - recomendou alguém
-Tirem o Tyler da carrinha - disse outra.
Tentei levantar-me nesse instante mas a mão fria do Rafael empurrou-me para baixo.
-Fica quieta por agora
-Mas está frio. - queixei-me.
Fiquei surpreendida quando ele soltou um sorriso abafado.
-Tu estavas tão longe - relembrei-me de repente - Estavas ao pé do teu carro
-Nao, nao estava
-Eu vi-te.
Eu tinha razão no que dizia e ele haveria de o reconhecer.
-Adriana, eu estava aqui contigo e puxei-te para te afastar.
-Nao - afirmei
-Por favor, Adriana
-Porquê?
-Confia em mim - suplicou-me.
Ja conseguia ouvir as sirenes.
-Promestes explicar-me tudo mais tarde?
-Okay - disse-me de um modo incisivo, bruscamente exasperado
-Okay - repeti agastada
So para a minha situação piorar, o chefe Martins, o meu pai, chegou antes que me pudessem ter levado dali em segurança.
-Adriana! - gritou num tom de pânico quando viu que era eu que estava estendida na maca.
-Estou absolutamente bem, ... pai - disse-lhe suspirando - Nao ha nada de errado comigo.
Quando finalmente me levantaram, afastando-me do automóvel, vi a grande mossa que coincidia com os contornos dos ombros do Rafael Fernandes.
Para além disso, encontrava-se presente ali a sua família com expressões que se alternavam entre reprovação e fúria. Mas nao mostraram qualquer tipo de preocupação relativamente à segurança do seu próprio irmão.
Quando ja estava dentro da ambulância, com o Tyler, este fitava-me com um ar ansioso.
-Adriana, desculpa a serio.
-Eu estou bem Tyler, tu é que nao pareces lá muito bem. Sentes-te bem?
Enquanto falávamos as enfermeiras desenrolavam as suas ligaduras manchadas e cobertas de sangue.
Ele ignorou-me.
-Cheguei mesmo a pensar que te ia matar.
-Nao te preocupes com isso; nao me atingiste.
-Como é que conseguiste escapar tão depressa? Por um momento estavas ali e no outro ja nao...
-Hm... o Rafael ajudou-me a afasta-me.
Pareceu ficar confuso nesse momento
-Quem?
-O Rafael Fernandes, ele estava ao pé de mim.
-O Fernandes? Nao o vi... parece que tudo aconteceu suficientemente depressa. Ele está bem?
-Acho que sim, mas nao obrigaram a deitar-se numa maca.
Eu sabia que nao estava doida. O que tinha acontecido?
Passado algum tempo acabei por adormecer.
-Ela está a dormir? - perguntou uma voz maliciosa
De repente, os meus olhos abriram-se.
O Rafael estava aos pés da minha cama, sorrindo. Olhei-o irritadíssima.
-Rafael, lamento imenso o sucedido. - principiou o Tyler
-Nao havendo sangue, nao ha problema - declarou ele, sorrindo
Entao, qual é o veredicto? - perguntou-me
-Nao ha absolutamente nada de errado comigo mas nao me deixam ir embora - queixei-me
-Nao te preocupes, eu vim libertar-te
Logo de seguida, apareceu um medico. Era bastante jovem, louro e mais bonito do que alguma estrela de cinema que alguma vez vi. De acordo com a descrição do meu pai, so poderia ser o pai do Rafael
-Entao, menina Martins? - disse o Dr. Fernandes - como é que se sente?
-Estou óptima.
-As suas radiografias parecem estar bem - disse ele - Dói-lhe a cabeça? O Rafael comentou comigo que bateu com a cabeça com alguma violência.
-A minha cabeça está óptima - repeti com um suspiro e logo de seguida lancei um olhar mal-humorado ao Rafael
Os seus dedos frios do Dr. Fernandes perscrutaram levemente a minha cabeça e reparou no meu estremecimento.
-Está dorido? - perguntou-me o Dr.
-Nem por isso.
Ouvi um riso abafado e quando olhei vi o sorriso condescendente do Rafael. Semicerrei os olhos.
-Bem, o seu pai está na sala de espera; ja pode ir para casa com ele mas se sentir tonturas ou algum problema volte ca.
-Nao posso voltar à escola?
-Talvez o melhor fosse repousar hoje
Olhei rapidamente para o Rafael.
-E 'ele', pode ir para a escola?
-Alguém tem que ir espalhar a óptima noticia de que ambos sobrevivemos - disse sorrindo.
-Na verdade, maior parte da escola está na sala de espera - afirmou o Dr. Fernandes.
-Oh nao - lastimei-me
-Quer ficar? - perguntou-me o Dr.
-Nao, nao! Estou óptima - assegurei-lhe.
-Parece que teve imensa sorte - afirmou o Dr.
-Tive a sorte de o Rafael ter estado ao meu lado.
-Oh, bem, sim - concordou o Dr.
-Bem, receio que o Tyler tenha de nos fazer companhia apenas por mais uns dias - disse ele, começando a examinar os golpes dele
Assim que o medico virou as costas, fui ter com o Rafael.
-Podemos ir falar por um instante? - perguntei-lhe baixinho.
Ele recuou um passo de mim.
-O teu pai está à espera de ti - disse ele por entre dentes.
-Mas eu gostava de falar contigo a sós se nao te importares. - insisti.
Lançou-me um olhar irritado.
-O que queres?
-Deves-me uma explicação. - relembrei-o.
-Salvei-te apenas a vida, nao te devo nada.
-Tu prometeste-me.
-Adriana, tu bateste com a cabeça. Nao sabes o que estas a dizer.
O seu tom de voz era incisivo.
-Nao ha nada de mal com a minha cabeça. - disse-lhe. - Apenas quero saber da verdade Rafael.
-O que é que tu julgas que aconteceu?
-Nao sei, mas lembro-me, e bastante bem, de que estavas bem longe de mim com 4 carros de distancia. E o Tyler também nao te viu, por isso nao venhas ca dizer que bati com demasiada força com a cabeça. Acabaste por deixar uma mossa no outro carro e nao tens qualquer um ferimento. A carrinha ter-me-ia esmagado, mas tu estavas a ergue-la no ar...
Parei de falar, nao conseguindo prosseguir, ao reparar no quão disparatado que aquilo era. Mas, embora fosse disparatado, era tudo verdade. Eu tinha-o visto a ergue-la.
-Achas mesmo que levantei uma carrinha de cima de ti? Ninguém ira acreditar em ti, sabes?
-Nao tenho intenção de conta-lo a alguém.
-Entao, que importância tem?
-Para mim tem. - continuei a insistir - Nao gosto de mentir, por isso deve haver um bom motivo para o estar a fazer.
-Nao podes agradecer-me e esquecer tudo isto?
-Obrigada. - disse secamente.
-Nao te vais esquecer disto pois nao?
-Nao.
-Entao... espero que gostes de sofrer desilusões.
Ficamos, por momentos, a olhar-mo-nos um para o outro com o ar serio.
-Porquê que te deste ao trabalho? - perguntei-lhe friamente.
-Nao sei - sussurrou.
Depois, virou-se de costas e afastou-se de seguida.
Eu fui ter com o meu pai.
-O que é que o medico disse? - perguntou o meu pai.
-O Dr. Fernandes disse que eu estou e que devo ir para casa repousar. Vamos embora por favor pai. - exortei.
O meu pai envolveu-me com o braço, nao me tocando totalmente. Foi um enorme alivio para mim quando entramos no carro radio-patrulha.
Seguimos em silencio e nenhum de nós se atreveu a dizer qualquer coisa que fosse.
Quando finalmente chegamos a casa é que o meu pai falou.
-Hm, filha... tens que telefonar à mãe. - disse o meu pai, baixando a cabeça, sendo invadido por um sentimento de culpa.
-Contaste à mãe?!
-Desculpa.
Quando saí do carro, bati com a porta com um pouco de violência a mais.
A minha mãe estava imensamente e desnecessariamente preocupada e tive de lhe dizer de que estava tudo bem para aí umas 50X. Implorou-me para que voltasse para casa. Eu estava totalmente consumida pelo mistério que o Rafael representava e mais do que um pouco obcecada pelo próprio Rafael. Decidi deitar-me cedo nessa noite. O meu pai continuava a vigiar-me com demasiados cuidados e isso ja me estava a irritar um pouco.

Nessa noite, foi a minha 1ª noite que sonhei com o Rafael Fernandes.

sábado, 2 de agosto de 2014

2º capítulo

A chuva manteve-se fraca durante o fim de semana, silenciosa, e eu consegui dormir bem.
Na 2ª feira de manhã as pessoas cumprimentaram-me no parque de estacionamento. Como ainda nao sabia o nome todas retribuía-lhes com um aceno e sorria-lhes. Felizmente nao chovia, mas fazia mais frio.
Na aula de Inglês, o Mike ocupou o seu lugar habitual ao meu lado. Tivemos um teste surpresa sobre 'O Monte dos Vendavais', era direito e externamente fácil na minha opinião.
Para ser sincera, eu sentia-me bastante mais à vontade do que qualquer outra pessoa da sala. Mais à vontade do que eu própria pensara sentir-me aqui.
Logo que saímos da sala, o céu estava repleto de farrapos brancos que giravam num torvelinho. Conseguia-se ouvir as pessoas a gritarem de uma forma empolgada umas para as outras. O vento açoitava-me a face e o nariz.
-Ena! - exclamou o Mike. - Está a nevar.
Olhei para os pequenos e minúsculos pompons de algodão branco que se estavam a acumular ao longo do passeio e a rodopiar erraticamente diante do meu rosto.
-Que horrível! Neve, lá se vai o meu bom dia.
Ele pareceu ficar surpreendido.
-Nao te agrada a neve?
-Nao, significa que está muito frio para chover. Isso é obvio, e além disso pensei que devia cair apenas flocos, tu sabes, cada 1 é único e tal. Mas estes assemelham-se às extremidades de cotonetes.
-Nunca assististe à queda de neve? - perguntou-me ele incredulamente.
-Claro que ja. - detive-me. - Na televisão.
O Mike riu-se. Entao, foi aí que uma grande e mole bola de neve nos atingiu. Suspeitei logo do Eric, pois ele estava a afastar-se de costas voltadas para nós, caminhando na direcção errada para a sua seguinte aula.
O Mike tinha a mesma opinião que eu. Inclinou-se, começando a formar um monte daquela macia polpa branca.
-Encontramo-nos à hora de almoço está bem?
Continuei a andar enquanto falava. 'Quando as pessoas começam a arremessar substancias húmidas, eu abrigo-me.'
Ele limitou-se a acenar-me com a cabeça.
Durante a manhã todos falavam empolgadamente sobre a neve; pelo que percebi era o 1º nevão do ano. Eu mantive-me calada. É claro que esta era mais seca do que a chuva - ate se derreter nas nossas meias - mas nao me agradava.
Caminhei de um modo vigilante ate à cantina, com a companhia da Jéssica, depois da nossa aula de Espanhol. As bolas de polpa macia voavam por toda parte. Eu mantive nas minhas mãos uma capa, caso precisasse de a usar como um escudo de proteção. O Mike alcançou-nos, rindo, com gelo a derreter-se no seu cabelo, anulando o efeito espetado.
Quando olhei para a mesa do canto devido a uma questão de habito fiquei, totalmente, paralisada no sítio onde me encontrava. Estavam 5 pessoas sentadas à mesa.
A Jéssica teve de me puxar pelo braço para me tirar dos meus pensamentos.
-Sim? Adriana? O que é que vais querer comer?
Baixei o olhar; tinha as minhas orelhas a ferver. Relembrei-me a mim mesma de que nao tinha qualquer motivo para me sentir inibida. Nao tinha feito nada de errado.
-O que é que se passa com a Adriana? - perguntou o Mike à Jéssica.
-Nada - respondi eu. - Hoje vou apenas beber um sumo.
E voltei para o final da fila.
-Nao tens fome? - perguntou-me a Jessica.
-Na verdade, estou a sentir-me um pouco enjoada - disse-lhe mas ainda com os olhos postos no chão.
Esperei entao que eles recebessem a sua comida e segui-os ate a uma mesa, com os meus olhos sempre pousados nos meus pés.
Servi-me do meu sumo lentamente, com o estômago a dar às voltas. O Mike perguntou-me 2 vezes, com uma desnecessária preocupação na minha opinião, como é que eu me sentia.
Disse-lhe de que se tratava de algo sem importância, mas interrogava-me se era melhor fazer uma encenação, escapar até à enfermaria e permanecer ali durante a hora seguinte.
Que coisa mais ridícula. Eu nao tinha que fugir.
Decidi, entao, lançar um olhar de relance na direcção da mesa da família Fernandes. Caso 'ele' me estivesse a olhar com ferocidade, eu iria acabar por faltar à aula de Biologia como cobarde que sou.
Mantive entao a minha cabeça baixa e olhei por baixo das minhas pestanas. Como nenhum deles estava a olhar na minha direcção decidi levantar um pouco mais a cabeça."
Estavam-se a rir. Tanto o Rafael como o André e o Bernardo tinham o cabelo completo repleto de neve a derreter-se. A Andressa e a Rita afastavam-se enquanto o Bernardo sacudia o seu cabelo gotejante na direcção delas. Pareciam estar a desfrutar do dia nevoso que estava, tal como todas as outras pessoas - so que eles pareciam estar mais a encenar uma cena retirada de um filme do que qualquer um de nós.
Para além dos seus risos e do espirito de brincadeira, eu sentia que havia algo de diferente mas nao conseguia ao certo determinar no quê que consistia essa diferença. Examinei o Rafael de uma forma minuciosa e cheguei à conclusão de que a sua pele ja nao estava assim tão branca mas sim um pouco mais morena - talvez enrubescida devido à luta na neve que teve - e os círculos sob os seus olhos estavam menos perceptíveis. Mas havia, porém, algo mais. Decidi, entao, ponderar olhá-los fixamente tentando isolar a mudança.
-Adriana, para onde é que estas a olhar? - intrometeu-se a Jéssica, seguindo o meu olhar fixo.
Nesse mesmo momento, os olhos 'dele' deslocaram-se para se cruzarem com os meus.
Baixei a minha cabeça, deixando com que os meus cabelos caíssem para me ocultar a cara. Tinha, porém, a certeza de que, no instante em que os nossos olhos se cruzaram que ele nao parecia descortês ou hostil como tinha acontecido na ultima vez em que o vi. Parecia, novamente, apenas curioso, insatisfeito sob algum aspecto.
O Rafael Fernandes está a olhar-te fixamente - comentou a Jéssica ao meu ouvido, soltando uns risinhos.
-Nao parece zangado, pois nao? - nao consegui evitar fazer-lhe essa pergunta.
-Nao - respondeu ela, parecendo fuçar confusa com a minha pergunta. - Devia estar?
-Acho que ele nao gosta lá muito de mim - confessei.
Ainda me sentia indisposta. Pousei a minha cabeça no braço.
-Os Fernandes nao gostam de ninguém...bem, pelo menos nao se mostram delicados o suficiente para que as pessoas gostem deles. Mas ele está a continuar a olhar-te fixamente.
-Pará de olhar para ele - murmurei-lhe com alguma exasperação.
Ela soltou um riso abafado, mas acabou por desviar mesmo o olhar, eu levantei a cabeça o suficiente para me certificar de que ela o tinha feito, encarando a possibilidade de recorrer à violência caso ela oferecesse resistência.
Durante o resto da hora do almoço. 'mantive-me, com extremo cuido, com os meus olhos pregados na minha própria mesa. Decidi entao honrar o compromisso que tinha feito comigo mesma, como ele nao estava nem tinha um ar zangado eu iria assistir à aula de Biologia. O meu estômago ja começava a dar pequenas voltas de pavor ao pensar de que eu iria sentar-me ao seu lado novamente.
A chuva caía, eliminando todos os vestígios de neve nas faixas límpidas e glaciais que escorriam pela berma de passagem para peões. Coloquei o meu capaz na cabeça, estando no meu intimo satisfeita. Estaria, assim dessa forma, livre para ir directamente para casa logo que a aula de E.F.
Assim que entrei na sala de aula com o Mike, pude verificar, que a minha bancada ainda estava desocupada. O professor Jorge circulava pela sala, dando um microscópio e uma caixa de dispositivos em cada uma das bancadas. Continuei a manter o meu olhar afastado da porta, desenhando indolentemente na do meu caderno de apontamentos.
-Olá - disse uma voz suave, melodiosa.
Ergui o olhar, aturdida por ele me estar a dirigir a palavra. Ele estava sentado tão afastado em relação a mim quanto a bancada o permitia. Ele tinha o cabelo molhado a ponto de gotejar, em desalinho - ainda assim, ele parecia-se com alguém que acabou de participar na filmagem de um anuncio publicitário a gel capilar.
O seu rosto deslumbrante demonstrava uma expressão amigável, aberta, com os lábios perfeitos a esboçarem um ligeiro sorriso. Porém, os seus olhos espelhavam algo cuidado.
-Chamo-me Rafael Fernandes - continuou. - Nao tive oportunidade de me apresentar na semana passada. Deves ser a Adriana Martins.
A minha cabeça estava tão confusa. Será que tudo aqui seria fruto da minha imaginação? Ela estava, agora, a ser perfeitamente delicado. Eu tinha que dizer alguma coisa, ele estava à espera disso. Mas nao me ocorria nada de convencional para dizer.
-Como é que sabes o meu nome? - disse.
Ele riu-se de uma forma suave e totalmente encantadora.
-Oh, acho que todos daqui sabem o teu nome. Toda a cidade tem estado a aguardar a tua chegada.
Sabia que tal correspondia à verdade mais ou menos.
-Ah.
Deu o assunto por encerrado. Eu desviei o olhar com um certo constrangimento.
Nesse momento, o professor Jorge deu começo à aula felizmente.
Tentei concentrar-me enquanto ele explicava o trabalho laboratorial do dia. Os diapositivos que se encontravam na caixa estavam desordenados. O trabalho era como parceiros de laboratório, tínhamos de separar os diapositivos referentes às células da extremidade da raiz da cebola consoante as fases de mitose que representavam e classifica-los em conformidade com estes aspectos. Passados 20 minutos, ele faz uma ronda pelas bancadas para ver quem acertou.
-Comecem - ordenou.
-1º as senhoras, parceira? - perguntou-me o Rafael
Eu levantei o meu olhar e vi-o a esboçar um sorriso constrangido tão perfeito que eu conseguia apenas mira-lo como uma idiota.
-Ou, se preferires, eu posso começar.
-Nao - disse-lhe, ruborizando. - Eu começo.
Estava a exibir-me, apenas so um bocadinho. Ja tinha realizado este trabalho e sabia o que procurar. A tarefa adivinhava-se fácil. Coloquei entao o 1º diapositivo no microscópio e regulei o mesmo para a objectiva de 40X. Examinei o diapositivo durante breves instantes.
A minha avaliação era segura.
-Prófase.
-Importas-te que dê uma olhadela? - perguntou-me ele quando eu ja começava a retirar o dispositivo. A mão dele segurou a minha, para me deter. Os seus dedos estavam gelados nesse momento, como se os estivesse colocado numa acumulação de neve antes de vir para a aula. Ele retirou logo a sua mão, mas quando me tocou senti uma dor pungente na mão, como se nos tivesse atravessado um fluxo de corrente eléctrica.
-Desculpa - disse ele entre dentes, retirando de seguida a sua mão.
No entanto, continuou a tentar alcançar o microscópio. Observei-o, ainda desconcertada, este a examinar o diapositivo, que o fez num instante ainda mais breve do que eu fiz.
-Prófase - concordou ele, registando no ficha de trabalho com uma caligrafia impecável. Substituiu agilmente o 1º diapositivo pelo 2º e, logo de seguida, olhou-o rapidamente.
-Anafase - murmurou, começando a anotar.
-Posso?
Ele esboçou um sorriso afectado e aproximou o microscópio de mim.
Quando fui a ver..Raios, ele tinha razão.
-Passamos ao 3º diapositivo?
Ele entregou-mo; Olhei para o diapositivo da forma mais fugaz que consegui.
-Interfase.
Ele assim que verificou, apontou a designação.
Terminamos antes de o resto da turma o fazer.
Dessa forma, fiquei sem nada para fazer, a nao ser, claro, tentar nao olhar para ele...sem sucesso. De repente, identifiquei aquela mudança subtil no seu rosto.
-Puseste lentes de contacto? - perguntei-lhe.
Ele pareceu ficar perplexo com a minha repentina pergunta.
-Nao.
-Oh - disse. - Pensei que havia algo diferente nos teus olhos.
Ele desviou o olhar.
Na verdade, eu tinha a certeza que havia algo diferente. Recordava-me bastante bem da cor negra dos seus olhos da ultima vez em que ele me lançou um olhar hostil. Hoje, neste dia, os olhos dele estavam com uma cor diferente: um estranho ocre, mais escuro do que caramelo manteiga, mas com um tom dourado. Nao compreendo como tal seria possível, entao cheguei a 2 conclusão onde uma delas so estava certa: ou ele estava a mentir-me em relação às lentes de contacto ou talvez Lisboa estivesse a enlouquecer-me na verdadeira acepção da palavra.
Baixei entao o meu olhar. As suas mais estavam novamente fechadas com os seus punhos cerrados.
O professor Jorge veio ate à nossa bancada para saber, porque motivo, nao estávamos a trabalhar. Mas quando foi a ver reparou que ja o tínhamos feito.
-Entao, Rafael, nao achas que deveria ter sido dada à Adriana a oportunidade de utilizar o microscópio? - perguntou-lhe o professor Jorge.
-Na verdade, foi ela que identificou 3 das 5 fases representadas nos diapositivos.
O professor Jorge olhou para mim, com uma expressão de cepticismo estampada no seu rosto.
-Ja tinhas realizado este trabalho laboratorial? - perguntou-me ele.
-Com raiz de cebola, nao. - disse sorrindo
-Com blastula de coregono?
-Sim.
O professor Jorge acenou com a cabeça.
-Em Setúbal, estavas integrada num programa de colocação avançada?
-Estava.
-Bem - exclamou ele após alguns instantes. - Suponho que o facto de vocês os 2 serem parceiros de laboratório seja proveitoso. - e começou a afastar-se
-Foi pena aquilo da neve, nao foi? - perguntou o Rafael
Tive a pequena sensação de que estava a tentar estabelecer um dialogo de ocasião e amigável comigo. Sinceramente, a paranóia ja estava a começar a invadir-me de novo.
-Nem por isso - respondi-lhe da forma mais sincera possível, em vez de tentar fingir ser uma pessoa normal como as outras. Ainda estava a tentar afastar a estúpida sensação de suspeiçao e nao estava a conseguir concentrar-me.
-O frio nao te agrada. - Nao era, de facto, uma pergunta mas sim uma afirmação.
-Nem do tempo chuvoso.
-Deve ser um pouco para ti viveres em Lisboa no Inverno. - desvaneou ele.
-Nao fazes ideia - murmurei por entre dentes de um modo enigmático.
Por algum motivo, ele parecia-me fascinado naquilo que lhe dizia.
-Entao, porquê que vieste para ca agora?
Ate agora, ninguém ainda me tinha colocado essa questão, mal tão directamente como ele me fez.
-É...complicado.
-Acho que consigo acompanhar-te. - pressionou-me.
-A minha mãe casou-se pela 2ª vez - declarei finalmente passado um bom bocado.
-Nao me parece ser algo assim tão complexo - discordou ele. - Quando é que isso aconteceu?
-No passado mês de Setembro.
-E tu nao gostas do tipo - conjecturou o Rafael, ainda com um tom de voz gentil.
-Nao, o João é uma boa pessoa, talvez pouco jovem de mais mas é muito boa pessoa.
-Entao porquê que nao ficaste com eles?
Nao conseguia determinar o tanto interesse dele.
-O João viaja muito, ganha a sua vida a jogar à bola.
Esbocei um sorriso irónico.
-Ja ouvi falar nele? - perguntou-me, retribuindo-me o sorriso.
-Provavelmente nao. Ele nao joga lá muito bem, joga na 2ª liga e desloca-se muito.
-E a tua mãe mandou-te para ca de modo a poder viajar com ele - disse ele novamente como se tratasse de uma suposição e nao de uma pergunta.
O meu queixo levantou-se um pouco.
-Nao, ela nao me mandou para aqui. Eu vim por minha própria vontade.
-Nao compreendo - confessou, parecendo desnecessariamente frustado com este facto.
-A principio, ela ficava comigo, mas acabava por sentir saudades do João. Essa separação fazia-a infeliz... por isso decidi que estava na altura, finalmente, de passar algum tempo útil com o meu pai.
Quando eu terminei de falar, a minha voz estava soturna.
-Agora, quem está infeliz es tu - afirmou ele
-E daí? - decidi desafia-lo.
-Nao me parece ser justo.
Ri-me sem vontade.
-Nunca ouviste 'A vida nao é justa.'?
-Creio ja ter ouvido isso algures - disse secamente.
Eu nada disse mais, mas interrogava-me por que motivo é que ele me continuava a fitar daquela forma.
O seu olhar fixo tornou-se analítico.
-Disfarças bem - disse-me ele lentamente. - Mas eu proprio estaria disposto a apostar que estas a sofrer mais do que mostras aos outros.
-Estou enganado?
Continuei a ignora-lo.
-Bem me pareceu que nao. - murmurou ele, presunçosamente.
-O que é que isso te pode interessar? - perguntei-lhe ja um pouco irritada
-É uma excelente pergunta - sussurrou ele pó entre dentes, com um tom de voz abafado que me fez interrogar se ele nao estava a falar consigo mesmo.
Suspirei.
-Nao propriamente, estou apenas mais aborrecida comigo mesma. Sou tão transparente... a minha diz sempre que sou o seu livro aberto.
-Pelo contrario; acho-te muito opaca.
-Entao, deves ser um bom avaliador de caracter. - retorqui
-Normalmente. - disse-me ele esboçando um sorriso rasgado
O professor Jorge restabeleceu a ordem na sala e eu virei-me para lhe prestar atenção. Nao conseguia acreditar que tinha acabado de expor a minha vida monótona àquele perfeito e lindo rapaz que devia supostamente, ou nao, estar a evitar-me.
Tentei parecer atenta enquanto o professor Jorge mostrava, com um retroprojector, aquilo que eu tinha visto através do microscópio. Mas os meus pensamentos estavam, porém, ingovernáveis.
Quando o toque da companhia finalmente soou, o Rafael apressou-se rapidamente a sair da sala de aula de uma forma tão ágil e graciosa como tinha feito na 2ª feira anterior e fixei o meu olhar na direcção em que ele seguia.
-Foi horrível - lamentou-se o Mike. - Todas pareciam exactamente iguais. Tiveste imensa sorte em ter o Fernandes como teu parceiro.
-Nao tive dificuldade em identifica-las - afirmei ofendida com a sua pressuposição, ficando arrependida logo e seguida - Mas eu ja tinha feito este trabalho laboratorial.
-O Fernandes estava hoje bastante simpático. - comentou ele
Nao me pareceu ficar satisfeito com esse facto.
-Pergunto-me o que teria ele na 2ª feira passada.
Depois da aula de E.F dirigi-me para o parque de estacionamento, a chuva nao passava de neblina mas senti-me mais segura e confortável quando entrei para o meu carro. Liguei o aquecimento, abri o fecho do meu casaco, tirei o capuz e soltei o meu cabelo húmido para que, o calor do aquecimento, o secasse mais rapidamente no caminho de casa.
Olhei à volta para me certificar de que o caminho estava livre, e foi aí, entao, que reparei nele. O Rafael Fernandes estava encostado à porta dianteira do seu Volvo, a 3 carros de distancia de mim, e a olhar para mim atentamente.
Desviei rapidamente o meu olhar e procedi a uma manobra de marcha-atras com o meu carro. Respirei profundamente, ainda a olhar para o lado oposto do meu carro, e voltei a recuar cautelosamente, com o maior êxito. Olhei fixamente em frente ao passar pelo Volvo, mas através de um vislumbre periférico, podia julgar que o tinha visto a rir.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

1º capítulo

A paisagem era, evidentemente, bela; eu nao podia negá-lo. Tudo era verde: as arvores, os troncos revestidos de musgo, os ramos em forma de abobada, o solo coberto de fetos. O próprio ar, filtrado pelas folhas, assumia ima tonalidade verde.
Apressei-me a desviar o olhar, enrubescendo novamente.
Também este nunca relaxou.
Permaneci imóvel no meu lugar, lançando um olhar vazio na direcção em que ele seguira.
Comecei a recolher os meus pertences lentamente, tentando refrear a raiva que me invadia, com receio de que os meus olhos se enchessem de lagrimas.
Por algum motivo, havia uma ligação estabelecida entre o meu temperamento e os meus canais lacrimais.
Levantei o olhar e deparei com um rapaz giro com cara de bébé, cabelo louro-claro cuidadosamente moldado com gel, alinhadamente espetado, que me sorria de um modo amistoso.
Vivera na Califórnia ate aos 10 anos e, por conseguinte, queria saber o que eu pensava do sol.
Foi a pessoa mais simpática que conheci neste dia.
Sorri-lhe antes de passar pela porta do balneário feminino. Ele era amável e um manifesto admirador meu, mas tal nao era suficiente para atenuar a minha irritação.
A chuva afastara-se, mas o vento estava forte e maua frio. Apertei os braços em torno do meu corpo.
Quando entrei no gabinete aconchegadamente, quase dei meia volta e saí pelo mesmo caminho.
Voltei a reconhecer aquele desgrenhado cabelo cor de bronze. Nao pareceu aperceber-se da minha entrada. Fiquei de pé, encostada à parede do fundo, esperando que a recepcionista pudesse atender-me.
Ele discutia com ela num tom de voz grave e sedutor. Depressa compreendi o cerne da questão.
A expressão estampada no seu rosto deveria ser motivada por uma exasperação completamente distinta. Nao era possível que aquele desconhecido tivesse sentido uma antipatia tão intensa e repentina por mim.
A porta abriu-se de novo e o vento frio irrompeu subitamente pela sala, soprando os documentos que se encontravam sobre a secretaria e fazendo com que os meus cabelos redemoinhassem à volta do meu rosto.               
A rapariga que entrou limitou-se a dirigir-se à secretaria, colocar um bilhete no cesto de arame e sair, mas as costas dele ficaram rígidas e virou-se lentamente para me fitar - o seu rosto era absurdamente formoso - com um olhar penetrante e repleto de ódio. 
Por um instante, senti um frémito de autentico medo, que fez com que os pêlos dos meus braços se eriçassem.
O olhar durou apenas um segundo, mas enregelou-me mais do que o vento gélido.
Virou-se novamente para a recepcionista.
- Entao, esqueça - disse ele apressadamente num tom de voz que parecia aveludado. - Vejo que é impossível. Muito obrigado pela sua ajuda.
Em seguida, deu meia volta sem voltar a pousar os olhos em mim e desapareceu porta fora.                                                                                                                                                                                               Aproximei-me devagarinho da secretaria, com o rosto inusitadamente branco em vez de vermelho, e entreguei o pedaço de papel assinado à recepcionista.
-Como correu o teu 1º dia, querida? - perguntou maternalmente.
-Muito bem - menti, com a voz débil.
Nao pareceu ficar convencida.
Quando entrei no carro, que era praticamente a ultima viatura que se encontrava no parque de estacionamento. Parecia um refugio, sendo ja o que eu tinha de mais semelhante a um lar naquele buraco verde e ultimo. Permaneci sentada no seu interior durante alguns momentos, lançando apenas o olhar vazio pelo pára-brisas, mas depressa tive frio suficiente para necessitar do aquecimento, pelo que liguei a ignição e o motor roncou ao entrar em funcionamento.
O dia seguinte foi melhor ... e pior.
Foi melhor porque ainda nao chovia, embora as nuvens fossem densas e opacas. Foi mais fácil, pois eu sabia o que esperar no meu dia. Mike sentou-se a meu lado na aula de Inglês e acompanhou-me ate à sala da aula seguinte, sob o constante olhar feroz de Eric, do clube de Xadrez, o que era lisonjeados. Ao almoço, sentei-me a uma mesa com um grande grupo, que incluía Mike, Erica, Jéssica e varias outras pessoas de cujos nomes e caras agora me recordava. Comecei a ter a sensação de que caminhava sobre agua; em vez de me afogar nela.
pior porque estava cansada; ainda nao conseguia dormir com o vento a assobiar em torno da casa. Foi pior péssimo porque tive de jogar voleibol e, da única vez que nao me afastei da trajectória da bola, atingi a minha colega de equipa na cabeça. Foi, por fim, pior porque "ele" nao apareceu na escola.
Fiz com que o leão cobarde parecesse o exterminador.              
No entanto, quando entrei na cantina com Jéssica - tentando evitar que os meus olhos esquadrinhassem o local em busca "dele" e fracassando redondamente -, vi que os seus 4 irmãos de aparência diversa estavam sentados à mesma mesa e "ele" nao se encontrava lá.
Mike interceptou-nos e conduziu-nos ate à sua mesa. Jéssica parecia enlevada por aquela atenção e os seus amigos depressa se juntaram a nós. Porém, enquanto tentava escutar a sua trivial tagarelice, sentia-me terrivelmente pouco à vontade, aguardando nervosa com o momento da sua chegada. Esperava que ele simplesmente me ignorasse quando aparecesse e demonstrasse que a minha suspeita era falsa.
Caminhei ate à aula de Biologia de uma forma mais confiante depois de, ate ao final do almoço, ele ainda nao ter aparecido. Sustive a respiração ao chegar à porta, mas "ele" também nao estava presente. Respirei fundo e dirigi-me ao meu lugar.
Permaneceu junto da minha bancada ate ao toque da campainha.
Então, sorriu-me melancolicamente e foi sentar-se junto de uma rapariga com aparelho dentário e uma permanente mal conseguida.  
Numa cidade como esta, onde todos controlavam todos, a diplomacia era essencial. Eu nunca tivera grande tacto; nao tinha qualquer tipo de pratica em lidar com rapazes excessivamente amáveis.
Disse isto a mim mesma repetidas vezes, mas nao conseguia livrar-me da incomoda suspeita de que era eu o motivo da sua ausência. Era ridículo e egoísta pensar que eu podia afectar alguém de maneira tão intensa. Era impossível, mas, mesmo assim, nao conseguia deixar de me preocupar com a possibilidade de tal corresponder à verdade.
Quando o dia de aulas finalmente terminou e o rubor provocado pelo incidente no jogo de voleibol começava a desvanecer-se das minhas faces, voltei rapidamente a vestir as minhas calças de ganga e a camisola azul-marinho. Apressei-me a sair do balneário feminino, satisfeita por constatar que, por enquanto, me esquivara com êxito do meu amigo "retriever". Encaminhei-me entao para o parque de estacionamento, agora apinhado de alunos que partiam. Entrei no meu carro e remexi no interior da minha mala a certificar-me de que tinha tudo aquilo de que necessitava.             
Na noite anterior, descobrira que o meu pai nao sabia cozinhar muito mais do que ovos estrelados e toucinho fumado, devido a isso pedi-lhe que me fossem confiadas as tarefas da cozinha. Morto para isso estava ele. Cheguei à conclusão de que ele nao tinha comida em casa, dessa forma, com a lista de compras e o dinheiro do frasco que era guardado no lava-louça e que se podia ler no rotulo "dinheiro para comida", dirigi-me para o Thriftway.
Liguei o ensurdecedor motor do meu carro e recuei cuidadosamente, ocupando um lugar na fila de carros que esperavam para sair do parque de estacionamento. Enquanto esperava vi os dois Fernandes e os gémeos Costa entrarem no seu carro. Tratava-se de um Volvo reluzente. Ainda nao tinha reparado nas suas roupas, pois fiquei demasiado hipnotizada com os seus rostos - tornava-se obvio que todos estavam excepcionalmente bem vestidos; de modo simples, mas com roupas que denotavam subtilmente origens de marca.           
Parecia excessivo o facto de eles terem boa aparência e, ao mesmo tempo, dinheiro, mas, tanto quanto me é possível observar, a vida funciona desta forma na maior parte das vezes. Nao parecia, porém, proporcionar-lhes a aceitação naquele lugar.
Nao, eu nao estava a acreditar inteiramente nisto. Deviam ser eles que desejavam viver isolados; nao conseguia imaginar nenhuma porta que nao fosse aberta por aquele grau de beleza.
Olharam para o meu carro quando passei por eles, tal e qual como as outras pessoas.
O Thriftway nao ficava muito longe da escola; situava-se a algumas ruas de distancia, para Sul, à saída da estrada nacional.
Em casa, eu é que me encarregava das compras e dediquem-me de boa vontade à tarefa com que ja estava familiarizada. O interior da casa era suficientemente grande para que eu nao conseguisse ouvir a chuva a bater no telhado e nao fosse relembrada do local onde me encontrava.
Assim que cheguei a casa, descarreguei as compras que tinha feito dos sacos, guardando-as onde encontrasse espaço livre. Achei que o meu pai nao se iria importar com isso. Envolvi as batatas em papel de alumínio e coloquei-as no forno para que assassem, mergulhei um bife na marinada e equilibrei-o em cima de uma enbalagem de ovos no frigorifico.
Logo que conclui essa tarefa, levei a minha pasta com livros para cima. Antes de ir fazer is trabalhos de casa fui vestir umas calças de fato de treino, apanhei o meu cabelo húmido num rabo-de-cavalo e fui ver o meu correio eletrônico. Tinha três mensagens, todas da minha mãe.
Ela estava preocupada por nao lhe responder e na ultima disse que se nao lhe respondesse ate às 17:30h do dia de hoje, telefonaria ao meu pai. Para grande sorte minha ainda tinha 1h mas, como sempre, a minha mãe antecipava-se sempre antes. Entao enviei-lhe a seguinte mensagem: 'Mae, acalma-te. Estou a escrever-te agora. Nao tomes nenhuma atitude precipitada pff.' Logo de seguida continuei a escrever: 'Está tudo bem. É claro que o tempo aqui está mau, estava apenas a arranjar tema para te escrever. Conheci e fiz amigos lá na escola nos quais se sentam comigo ao almoço. A tua blusa está na lavandaria e ja a devias ter ido buscar na 6ª feira. O pai comprou-me um carro, acreditas? Adoro o carro. Também sinto imensas saudades tuas. Escrevo-te em breve mas nao vou ver o meu correio eletrônico de 5 em 5min. Descansa e respira. Gosto muito de ti.' E enviei essa mensagem, saí do correio eletrônico e dediquei-me aos trabalhos de casa.
Decidi entao ler 'O Monte dos Vendavais' - que era o romance que estávamos a estudar, de momento, na disciplina de Inglês - e era isso que estava a fazer quando o meu pai chegou a casa. Tonha perdido a noção do tempo e precipitei-me para o andar de baixo com o fim de retirar as batatas e colocar o bife a grelhar.
-Filha?
-Olá pai, bem vindo a casa.
-Obrigado.
O que vai ser o jantar? - perguntou-me de uma forma cautelosa.
A minha mãe era uma cozinheira imaginativa e nem sempre as suas experiências eram combustíveis. Fiquei surpreendida, mas também triste, por ele parecer guardar lembranças tão antigas.     
-Bife com batatas – respondi.
Pareceu ficar aliviado.
Dava-me a impressão de estar constrangido ao ficar na cozinho sem fazer nada; arrastou-se pesadamente ate à sala de estar para ir ver televisão enquanto eu preparava o jantar. Nós os dois sentíamo-nos mais à vontade desta forma. Preparei também uma salada enquanto esperava que os bifes cozinhassem e pus a mesa.
Assim que estava tudo pronto chamei-o e ele sentiu o cheiro da comida de forma apreciadora quando entrou na cozinha.              
-Cheira bem, filha.
-Obrigada.
Comemos em silencio durante alguns minutos, o que nao era, de modo nenhum, constrangedor. Nenhum de nós se incomodava com o silencio. Ate que ele quebrou o silencio e disse:
-Entao, que tal te parece a escola? Fizeste algumas amizades? - perguntou-me ele enquanto se servia pela 2 vez.
-Bem, tenho algumas aulas com uma rapariga chamada Jéssica. Sento-me na companhia dos amigos dela à hora do almoço. Também ha um rapaz, o Mike, que é bastante amável. Todos são muito simpáticos. Com uma excepção de relevo.
-Ja agora pai, conheces a família Fernandes? - perguntei-lhe de um modo hesitante.
 -A família do Dr. Fernandes? Claro que sim, o Dr. Fernandes é um grande homem.
-Eles, os filhos, são um pouco diferentes. Nao parecem integrarem-se muito bem lá na escola.
Quando afirmei isso ao meu pai, ele surpreendeu-me ao parecer ficar zangado com tal facto dito por mim.
-Pessoas desta cidade - resmungou. - O Dr. Fernandes é um cirurgião excelente que poderia, possivelmente, trabalhar em qualquer hospital do mundo e ganhar dez vezes mais o salário que ganha aqui - ele continuou, aumentando a tom de voz. - Temos muita sorte em tê-lo aqui, por a sua mulher ter querido viver numa cidade pequena. Ele é uma mais-valia para a comunidade e todos os miúdos são educados e bem-comportados. - deteve-se por um instante.
-Quando eles se mudaram para ca, eu próprio tive as minhas duvidas acerca de todos esses adolescentes. Pensei que me trouxessem problemas mas são todos muito maduros. Nenhum deles me causou o mínimo incomodo. Mas so por serem tecem-chegados, as pessoas têm que bisbilhotar.
Foi o discurso mais longo que alguma vez ouvi do meu pai.
Retrocedi.
-A mim, parecem-me bastante simpáticos.
-Entao devias conhecer o medico. - afirmou o meu pai, rindo-se. - Felizmente ele tem um casamento feliz. Muitas enfermeiras têm dificuldade em concentrarem-se no trabalho quando ele está por perto.
Quando acabamos de comer ele levantou a mesa enquanto eu começava a tratar da louça. Logo que acabei de lavar a louça dirigi-me de má vontade ao meu quarto para realizar os meus trabalhos de casa de Matemática.
Por fim, tive finalmente uma noite calma. Acabei por adormecer depressa porque me sentia exausta.
Ao longo do resto da semana, nao ocorreram grandes acontecimentos. Quando chegou a 6ª feira, eu ja conhecia reconhecer, se nao mesmo chamar pelo nome, quase todos os alunos da minha escola.
Na aula de E.F., todos os meus colegas de equipa aprenderam a nao me passar a bola (devido a ser trapalhona e a acertar com a bola nos outros) e a colocarem-se rapidamente à minha frente caso a equipa adversaria quisesse tirar proveito da minha fraqueza. Eu, de bom agrado também, nao me punha no caminho deles.
Nesse mesmo dia 'ele' nao voltou à escola.
Todos os dias, eu ficava ansiosamente atenta ate os restantes Fernandes entrarem na cantina sem 'ele'. Entao aí, eu podia sossegar e participar na conversa que se desenvolvia à hora do almoço.
Era uma viagem a um Parque Marítimo que seria dentro de 2 semanas que o meu amigo Mike estava a organizar. Fui concidadã e aceitei ir, mais por delicadeza do que por vontade para ser sincera. Suponho que as praias deviam ser quentes e secas, algo que eu gostava bastante.
Quando chegou a 6ª feira, eu própria ja me sentia bastante à vontade ao entrar na aula de Biologia, estando preocupada com a presença 'dele'. Pelo que ouvi 'ele' tinha desistido da escola e tentei nao pensar muito 'nele', mas como é obvio nao consegui eliminar de uma so vez a preocupação devido a eu ser a responsável da sua ausência prolongada, por mais ridículo que fosse para alguém.    
O meu 1º fim de semana com o meu pai decorreu sem incidentes. O meu pai. nao estando habituado a passar o tempo na casa anteriormente vazia, trabalhou maior parte do fim de semana. Eu procedi à limpeza da casa, adiantei os meus trabalhos de casa e escrevi mais mensagens falsamente animadas pelo correio electrónico à minha mãe. No sábado dirigi-me à biblioteca, mas esta estava mal fornecida, o que nao me dei ao trabalho de obter um cartão; em breve teria de marcar um dia para ir a Olympia ou a Seattle e lá encontrar uma boa biblioteca.